quinta-feira, 12 de abril de 2012

De Niterói a Ilha Grande sozinha em uma canoa havaiana

Aloha!
Esta é a primeira postagem do meu blog Vou de Canoa! Aqui vocês sempre encontrarão relatos de remadas, dicas e histórias do mar. Encontrei uma boa forma de começar, relatando detalhes da remada mais desafiadora da minha vida: de Niterói a Ilha Grande, sozinha, em minha canoa havaiana batizada de Guardiã!


Minutos antes da partida, na Praia de Charitas, em Niterói.

CADA UM TEM O SEU EVEREST


Como encontrar o equilíbrio entre as doses certas de cautela e ousadia? Um limiar tênue separa estes dois sentimentos, mas eles caminham lado a lado quando se tem um grande desafio a ser vencido. Quando se esbarram, se misturam e se conflitam nos trazem dúvidas, ansiedade e angústia. Ir ou não ir? Partir ou adiar? Cautela e ousadia: assim foi a minha sexta-feira, dia 06 de abril de 2012, quando tudo estava marcado para a partida: veleiro e equipes de filmagem, fotografia e apoio, tudo e todos a postos no horário e local marcados. Mas a aproximação inesperada de uma frente fria no Rio de Janeiro e um vento Sudoeste soprando com força também inesperada nas horas que antecediam a partida estavam ali, se contrapondo a toda a logística planejada.



A adrenalina tomou conta de mim. Estudar o mar e as minhas próprias limitações físicas em uma hora como esta, às vésperas de embarcar para a maior remada da minha vida, e escolher entre duas palavras que iriam nortear um caminho de sucesso ou fracasso - um "sim" ou um "não" para a partida - fez a adrenalina subir a mil e os sentimentos conflitarem arduamente.

Encontrar o equilíbrio perfeito entre a cautela e a ousadia parece ser um dos segredos para o sucesso de grandes desafios. Se você não é cauteloso o suficiente, corre risco de levar ao fracasso um longo planejamento por conta de decisões tomadas na base da adrenalina, mas se não for ousado o bastante, corre o risco de nunca encontrar as condições que julgue ideias para dar o seu próximo passo. E agora?

Já li muitos livros que relatam histórias de velejadores ou remadores vencendo infindáveis distâncias oceânicas ou de escaladores batalhando para conquistar imponentes montanhas. A verdade é que cada uma dessas histórias conta como superar os seus limites e desenvolver uma boa capacidade de leitura das condições que a Natureza oferece. Vencer 130 quilômetros de mar, a cada braçada, é uma tarefa difícil. Naquela tarde de sexta-feira, ponderar entre o sim e o não diante do mar, ainda que fotos e matérias de jornais já tivessem anunciado minha partida, fez parte do desafio de domar meus sentimentos na hora da tomada de decisão crucial para o sucesso da minha empreitada.
Nota na coluna do Gilson Monteiro, no Caderno de Niterói do Jornal
O Globo de sábado, dia 07 de abril de 2012.
(Observação: Marina é o nome da minha irmã!)


A partida foi somente no dia seguinte em que saiu a nota no jornal, e o dia "D" foi o 08 de abril de 2012, ao meio dia e meia do domingo de Páscoa: um dia Santo. Como não me admirar com esta simbólica coincidência da Natureza? Contra minha vontade, os ventos me empurraram para que eu partisse no dia em que se comemora a ressurreição de Cristo, um dia de renascimento, e não no dia de Sua morte - a sexta-feira da Paixão. Para mim isto é muito simbólico, pois considero cada grande desafio vencido em minha vida um renascimento, uma nova forma de ver a vida, novas perspectivas, novos olhares. Desde 2005, quando comecei a remar, grandes remadas já me fizeram renascer para a vida. Com esta não haveria de ser diferente.


DA PRAIA DE CHARITAS (NITERÓI/RJ) À PRAIA DE PALMAS (ILHA GRANDE, ANGRA DOS REIS/RJ)


Saída da Baía de Guanabara, com o Pão de Açúcar na despedida.

Vinte e oito horas remando, 28 horas de trabalho muscular constante com aplicação de técnica e força, movimentos repetidos e concentração máxima para vencer o sono da madrugada, a dor física crescendo gradativamente por todos os músculos do corpo, a fadiga mental, o enjoo, a angústia de ver o dia virar noite e depois a noite virar dia... e os mesmos e sincronizados movimentos acontecendo. Foi isso que fiz por 28 horas para percorrer com braçadas e muita raça os 130 quilômetros que separam a Praia de Charitas, em Niterói, e a Praia de Palmas, na Ilha Grande.

Sempre tive esse sonho de chegar a Ilha Grande remando. Ele nasceu antes mesmo de eu começar a remar, quando visitei a ilha pela primeira vez, aos 19 anos, para acampar na Praia dos Aventureiros. Ficou guardado, e eu lembrava dele sempre nos Reveillons, quando escrevia minha listinha de "desejos futuros". Embaixo de "ter um cachorro rottweiler" sempre vinha "comprar um caiaque oceânico para ir remando para a Ilha Grande".

Foi em 2005 que conheci a canoa havaiana e logo me apaixonei pelo esporte. Em Niterói haviam duas canoas OC6, trazidas pelo grande amigo e instrutor Marcelo Depardo. As OC1 e OC2 ainda não eram usuais. Com foco no meu sonho secreto, comprei então o caiaque dos meus sonhos: um imponente Cabo Horn da Opium com capacidade de 70 litros de carga. Era o que eu precisava para carregar meus pertences na minha sonhada jornada que um dia aconteceria. Achava que era o que precisava para carregar os meus sonhos.


Fui me envolvendo com a canoa havaiana e o caiaque era pouco usado por mim. Até que, em 2010, aconteceu a remada para a Ilha Grande pela primeira vez, com mais 5 amigos guerreiros. Em julho de 2010, saímos da Praia da Urca, no Rio de Janeiro, e remamos obstinadamente até a Praia do Abraão, na Ilha Grande, levando exatas 17 horas. Foi uma remada muito dura e - paradoxalmente como de se esperar destas grandes empreitadas - a conquista também foi muito prazerosa. Foi a primeira vez em que uma equipe mista, composta por 4 homens e 2 mulheres, foi remando até a Ilha Grande sem revezamento de remadores e sem barco de apoio. Achei que, depois dessa remada, aquele meu sonho dos 19 anos pisando pela primeira vez na Praia dos Aventureiros estaria acalmado.

Ainda não tenho meu rottweiler, pois moro em um apartamento. Mas posso dizer que, aos 31 anos, a determinação me fez realizar a dura remada para a Ilha Grande pela segunda vez, mas agora sozinha. Nas minhas listinhas dos Reveillons não precisarei mais incluir este item. Sem dúvida, esta remada solo foi mais difícil do que a de OC6. Muitas coisas aconteceram entre o início e final da remada, e tudo será muito bem contado por aqui, neste blog, através de histórias e fotos postadas e também no filme que a produtora Studio Prime vai produzir.

Chegada na Praia de Palmas, na Ilha Grande. Sorriso de felicidade depois de lágrimas de dor após 28 horas de remada e 130 quilômetros percorridos em minha canoa.



Esta remada tornou-se viável com a parceria e amizade de órgãos institucionais, apoio de marcas e participação de amigos.

Patrocínios:
  • Instituto Estadual do Ambiente - INEA
  • Instituto Vital Brazil (onde atuo, orgulhosamente, como bióloga)
Parcerias:
  • Pousada Tapera das Palmas
  • Roupas de surfe feminino Mana Handicraft
  • MP3 Player à prova d'água Eigth Co.
Apoios:
  • Inove Car - Deu polimento na canoa.
  • Cor e Arte Bureau & Sign - Imprimiu os adesivos náuticos da canoa pelo preço de custo.
  • Todaro surfwear - Forneceu roupa de lycra para ser utilizada durante a remada.
Equipe:
  • Fotografia - Theo Andrade
  • Filmagem - Thiago Silva (Studio Prime)
  • Apoio logístico - Livia Mello
  • Tripulação do veleiro Tlaloco - Alexandre Serrano, Fernando Rodrigues e Marcus Arruda.
Aloha, galera!
Até a próxima postagem, com curiosidades, dicas e relatos precisos da remada!









8 comentários:

  1. Parabéns Lu...Seu Sucesso e coragem em desafiar os limites e seu amor ao mundo marinho nos deixa muito orgulhosos!!! Te admiro muito!! Mais uma vez parabéns. És uma guerreira que possui uma grande guardiã!!! Beijoss!!

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  2. Parabéns pelo feito! Vc vai de canoa eu gosto de ir de bike. Ainda não fiz um percurso tão longe assim com minha magrela. Vou estar te seguindo por aqui e vendo suas atualizações direto nos meus blogs: http://ramoncunhafotografia.blogspot.com.br/ e http://poraicomcelular.blogspot.com.br/

    Abração!!!

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  3. O que dizer dessa menina? Nada, o blog diz tudo. Parabéns Lu, parabéns!!!

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  4. Respostas
    1. Parabéns, Lu!
      Fico imaginando como deve ter sido incrível... chegar!
      Pisar na areia...
      Conquistar seu sonho!
      Se realizar!
      Ter a confirmação, por si própria, de que é capaz!
      Que os mares e a Guardiã te mantenham imaculada na alma!

      Aloha!
      Maíra

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  5. Fiquei de boca aberta ao saber do seu feito!Parabens....Quero que saiba que sua atitude me motivou a retomar alguns sonhos, desjo a voce muita forca, saude e que Deus te abencoe e lhe guie em novas conquistas!

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  6. Tava eu procurando se alguma alma viva havia feito esse trajeto e achei uma mulher que fez a travessia sozinha. Continuei procurando e achei uma reportagem sobre um grupo misto que fez a remada em 2010. Continuei pesquisando e vim parar aqui, que para minha surpresa é a mulher das reportagens haha. Parabéns e obrigado pela inspiração.

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