terça-feira, 8 de maio de 2012

Rio-Ilha Grande de OC6

Releituras são importantes.
Tenho mania de ler livros sublinhando as partes que me chamam atenção. Li o livro Linha-D´água - Entre Estaleiros e Homens do Mar, do Amyr Klink, em 2007, mas esta semana resolvi que gostaria de recomeçar a leitura desta obra.
Não deu outra: percebi o quanto nosso inconsciente nos alerta para exatamente aquilo que queremos ler. Em 2007, não havia me chamado atenção um certo trecho na página 19, o qual imediatamente sublinhei quando li mais uma vez, neste presente ano de 2012.

"(...) Com as obras feitas e a milhas acumuladas, eu deveria ter acalmado o desejo de pensar em outro barco. Deveria comemorar feliz, na preguiça de Paraty, as latitudes cumpridas sem acidentes, os destinos alcançados. Aconteceu justamente o contrário. Ganhei muma espécie de curiosidade crônica nos olhos, uma certa fixação por ideias simples, por soluções que andavam no meu nariz e que antes eu era incapaz de ver. Minhas dúvidas sobre barcos, a vida em volta deles e os seus segredos multiplicaram-se feito larvas."

Isto me lembrou meus sentimentos e minha fixação por ir remando até Ilha Grande.
Em 2010 me juntei com meus amigos Dave Macknigth, Lucas Fleury, Jorge Freitas, Douglas Moura e Silvia Hargreaves para a conquista de um sonho. Saímos da Praia da Urca, no Rio de Janeiro, em uma noite de sexta-feira, quando o relógio marcava meia noite e meia. Dezessete horas depois aportamos na Praia do Abrão, na Ilha Grande. Quem nos levou? Nossos corpos, nossas vontades e a guerreira canoa havaiana OC6 Ruahatu.



Este foi o meu relato da remada, escrito com a conquista ainda pulsando nas veias e distribuído por e-mail para meus familiares e amigos:

"Amigos!!!
Como é bom ter sonhos de vida simples!!! Esse final de semana realizei um de meus maiores sonhos!!! Fui remando do Rio à Ilha Grande!!! Remando!!!
E esse é um sonho verdadeiro que cultivo há anos, e que nunca achei que fosse estar perto o bastante para acontecer tão de repente!!! Fomos em uma canoa havaiana composta por uma guerreira equipe de quatro homens e duas mulheres. Vencemos o sono, a fadiga, a dor, o vento terral forte nos tirando da rota, ondas grandes, tubarões-tintureiro rondando a canoa, um mar sem fim com 135kms entre a partida e a chegada e 17 horas de trabalho muscular ininterrupto que nos levou da Praia da Urca diretamente à Praia de Abraão.
Saímos da Praia da Urca à 24hs30min desta sexta-feira e chegamos na Praia do Abraão às 17hs30min de sábado com os rostos brancos de sal ressecado na pele, dores musculares profundas, fome e enjôo, mas extremamente felizes e emocionados. Em todo esse tempo, paradas rápidas a cada duas horas de 5 a 10 minutos para comer, além de uma hora desembarcados em Barra de Guaratiba para um café da manhã.
Foi uma das maiores superações pelas quais já passei, redescobrindo novos limites do corpo, da força da mente e das imposições da Natureza. De presente, no meio da madrugada e no breu flutuante marinho em que nos encontrávamos, a maior estrela cadente que já vi na vida riscava o céu negro como um rabisco de giz deitado.
Pisando as areias macias da Praia de Abraão no fim do dia, de mãos dadas com meus amigos Dave Macknigth, Douglas Moura, Lucas Fleury, Jorge Freitas e Silvia Hargreaves e ao lado da guerreira canoa havaiana Ruahatu, percebi que fui forte o bastante para conquistar esse meu sonho e muito corajosa para encarar com esta equipe a façanha pioneira desta travessia sem barco de apoio, sem troca de remadores, sem parada para dormir e em uma temporada de outono com previsões de vento e ondas com poucas tréguas.
Estou muito feliz por descobrir essa força toda dentro dos meus 52 quilos de suposta fragilidade.
Só posso concluir que, quem passa por isso, supera qualquer dificuldade que a vida venha nos impôr.
Imua, em havaiano, significa "adiante"! IMUA!
Luiza Perin."


Releituras são importantes... Achava que a vontade de ir remando até Ilha Grande estaria de vez saciada ali, naquele ano de 2010. Mas passados alguns meses da grande remada, o pensamento voltou a rondar. Quando pensava em limites, pensava na Ilha Grande. Quando pensava na Ilha Grande, pensava em determinação e treino. Senti que precisava fazer aquilo sozinha. Precisava fazer aquilo por mim, pelo simples desejo de saciar uma vontade muito grande de remar, remar, remar... E aí eu relembro, uma vez mais neste momento, a frase sublinhada do livro do Amyr Klink: "Minhas dúvidas sobre barcos, a vida em volta deles e os seus segredos multiplicaram-se feito larvas." Fui tomada pela curiosidade crônica nos olhos e a fixação por colocar em prática ideias simples que me acometem de repente.
E no dia 08 de abril de 2012, não à meia noite e meia, mas sim ao meio dia e meia, saí para minha jornada solo, de canoa havaiana, com destino à Ilha Grande. Desta vez, levava o nome da minha cidade, pois saí da Praia de Charitas. Vinte e oito horas depois, pisei novamente na Ilha Grande, após usar como combustível apenas meus músculos, minhas reservas de gordura e meus sonhos.

Remada de Niterói a Ilha Grande. Abril 2012. Fotografia: Theo Andrade

 Este é um vídeo que mostra três minutos das longas 17 horas de remada em 2010. Dá para ter ideia do que é remar na Restinga da Marambaia:   
                                         

ALOHA E A ATÉ A PRÓXIMA POSTAGEM!
Luiza Perin





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