segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Travessias: E se não ousássemos fazê-las?


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa
 De vez em quando sou acometida por algo que costumo chamar de "surto de desapego". Arrumo obstinadamente todos os armários de casa analisando e fiscalizando cuidadosamente roupas, acessórios e objetos que já não me servem mais ou que, simplesmente, não quero mais: é hora do desapego. Objetos têm memória e guardam um pouco da nossa história, mas há um tempo em que é preciso passá-los adiante, seguindo os conselhos de Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa: "é preciso esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares". Este é um dos símbolos das travessias. "E se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos"...
 
Meus pensamentos voam longe e me levam a um oceano distante em uma época remota. Da Ásia à Melanésia, da Melanésia à Polinésia e da Polinésia para o resto do mundo, remadores em canoas com balancim lateral - o estabilizador que chamamos de "ama" - não se conformavam em ficar sempre às mesmas margens e tinham sede por descobrir novos lugares. Remavam por dias a fio, descobriam novas ilhas e, nestes caminhos, certamente descobriam a si mesmos. E para empreender estas grandes travessias precisavam de grandes doses de desapego e obstinação. Longe de parecer um discurso frio e insensível, quando falo em desapego desejo falar das COISAS MAIS IMPORTANTES DA VIDA, que compreendem a própria vida, as experiências que vivemos e não os objetos que a tornam mais fácil ou mais prazerosa. Quando falo de travessias meu desejo é falar não só do ato de remar de uma praia a outra, mas do ímpeto natural de nunca permancer à margem de mim mesma.
 
Das minhas primeiras e mais singelas travessias de canoa, quando saía da Praia de Charitas nas águas calmas e escondidas da Baía de Guanabara e chegava gloriosamente às praias da Região Oceânica de Niterói até as minhas mais audaciosas remadas, em todas elas expandi horizontes e aprofundei um leque de experiencias marinhas que carrego como minhas mais importantes medalhas. Em todas elas, a cada vez e a cada descoberta - não importa a distância - pude avançar meu olhar para "além mar" de mim mesma. Descobri novas ilhas, novas praias e novas facetas em minha própria personalidade.
 
Nesta postagem, deixo fotos de uma travessia realizada em agosto de 2013, da Praia de Itaipu ao Quebramar da Barra. Quatro horas remando, 27 quilômetros, vento com rajadas de 15 nós e um down wind muito divertido proporcionando uma "remada surfada" durante todo o tempo da brincadeira. No final de tudo, uma pequena surpresa: quando todos os sites de previsão disseram na véspera que o mar estaria com um tamanho "x", nos deparamos um um tamanho "y", o que culminou em um adrenalizante desembarque com canoas quebradas, mais histórias para contar e mais experiências adquiridas. Dos males o menor: ninguém se machucou e meu maior prejuízo foi apenas um pequeno conserto na ama. Mas ainda lembrando frases do poeta Fernando Pessoa:
 
"Tudo vale a pena se alma não é pequena!"
 
Desembarque em ondas de 1,5m no Posto 1 da Barra. Um pouco de adrenalina faz bem ao coração.
Saída da Praia de Itaipu às 10h30 da manhã, sincronizado propositalmente com a entrada do vento Leste que ajudou na chegada ao destino, quatro horas mais tarde.
O vôo rasante das gaivotas, o céu nublado e a canoa sendo empurrada pela onda em direção a Barra da Tijuca. Essa é a "remada surfada".
Aloha e até a próxima postagem!
 
"Navegar é preciso."
                            Fernando Pessoa