segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Travessias: E se não ousássemos fazê-las?


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa
 De vez em quando sou acometida por algo que costumo chamar de "surto de desapego". Arrumo obstinadamente todos os armários de casa analisando e fiscalizando cuidadosamente roupas, acessórios e objetos que já não me servem mais ou que, simplesmente, não quero mais: é hora do desapego. Objetos têm memória e guardam um pouco da nossa história, mas há um tempo em que é preciso passá-los adiante, seguindo os conselhos de Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa: "é preciso esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares". Este é um dos símbolos das travessias. "E se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos"...
 
Meus pensamentos voam longe e me levam a um oceano distante em uma época remota. Da Ásia à Melanésia, da Melanésia à Polinésia e da Polinésia para o resto do mundo, remadores em canoas com balancim lateral - o estabilizador que chamamos de "ama" - não se conformavam em ficar sempre às mesmas margens e tinham sede por descobrir novos lugares. Remavam por dias a fio, descobriam novas ilhas e, nestes caminhos, certamente descobriam a si mesmos. E para empreender estas grandes travessias precisavam de grandes doses de desapego e obstinação. Longe de parecer um discurso frio e insensível, quando falo em desapego desejo falar das COISAS MAIS IMPORTANTES DA VIDA, que compreendem a própria vida, as experiências que vivemos e não os objetos que a tornam mais fácil ou mais prazerosa. Quando falo de travessias meu desejo é falar não só do ato de remar de uma praia a outra, mas do ímpeto natural de nunca permancer à margem de mim mesma.
 
Das minhas primeiras e mais singelas travessias de canoa, quando saía da Praia de Charitas nas águas calmas e escondidas da Baía de Guanabara e chegava gloriosamente às praias da Região Oceânica de Niterói até as minhas mais audaciosas remadas, em todas elas expandi horizontes e aprofundei um leque de experiencias marinhas que carrego como minhas mais importantes medalhas. Em todas elas, a cada vez e a cada descoberta - não importa a distância - pude avançar meu olhar para "além mar" de mim mesma. Descobri novas ilhas, novas praias e novas facetas em minha própria personalidade.
 
Nesta postagem, deixo fotos de uma travessia realizada em agosto de 2013, da Praia de Itaipu ao Quebramar da Barra. Quatro horas remando, 27 quilômetros, vento com rajadas de 15 nós e um down wind muito divertido proporcionando uma "remada surfada" durante todo o tempo da brincadeira. No final de tudo, uma pequena surpresa: quando todos os sites de previsão disseram na véspera que o mar estaria com um tamanho "x", nos deparamos um um tamanho "y", o que culminou em um adrenalizante desembarque com canoas quebradas, mais histórias para contar e mais experiências adquiridas. Dos males o menor: ninguém se machucou e meu maior prejuízo foi apenas um pequeno conserto na ama. Mas ainda lembrando frases do poeta Fernando Pessoa:
 
"Tudo vale a pena se alma não é pequena!"
 
Desembarque em ondas de 1,5m no Posto 1 da Barra. Um pouco de adrenalina faz bem ao coração.
Saída da Praia de Itaipu às 10h30 da manhã, sincronizado propositalmente com a entrada do vento Leste que ajudou na chegada ao destino, quatro horas mais tarde.
O vôo rasante das gaivotas, o céu nublado e a canoa sendo empurrada pela onda em direção a Barra da Tijuca. Essa é a "remada surfada".
Aloha e até a próxima postagem!
 
"Navegar é preciso."
                            Fernando Pessoa
 
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Um dia de surfe na Praia da Reserva

No teto do carro, pranchas de stand up. No interior, remos e streps. E no painel a Janaína, minha havaianinha que dança, dança e dança... E está sempre saltitante tocando seu ukulele em sua saia rodada... Janaína, sereia do mar. Ela sempre olha pra mim e pergunta: "Onde vamos desta vez?".

Atravessando a ponte Rio-Niterói sob o olhar da Janaína.
Desta vez o destino é a Praia da Reserva, Janaíana. E o objetivo é inédito para o dia de hoje: aprender a surfar de stand up paddle.

Janaína de frente para a Gopro, que permite o registro tão fiel mesmo dos mínimos momentos e seguntos mais alucinantes do dia.
Havia coisas na vida que não davam para ser explicadas. Até que inventaram a Gopro, essa filmadorazinha mágica à prova d'água que acompanha a gente em tudo o que esporte! O que aconteceu neste dia está claramente registrado neste filme de 3 minutos que postei aqui: https://vimeo.com/67555177

Poderia escrever que era um dia ensolarado e lindo. Vocês irão ver.
Poderia escrever que a praia estava vazia e a água estava maravilhosamente azul. Vocês irão ver.
Poderia escrever que estava muito feliz com a prancha nova da Art in Surf, feita com bambu. Vocês irão ver.
Poderia escrever que surfei rindo de alegria. Mas vocês também irão ver!

Primeira tentativa de drop e um caldo.

Segunda tentativa, mais concentrada.
 
Terceira tentativa, só curtição!

Agora aperte o play e curta a praia comigo, como faz a Janaína em todos os lugares que vou!
Obrigada, minha amiga Livia Mello, que me deu de presente essa bonequinha linda sempre me pergunta qual é a próxima!
 
 

Agradecimentos:
Art in Surf
Mana Handicraft

Aloha e até a próxima postagem, Janaína!
Luiza Perin


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Relatos da Ilha de Páscoa (PARTE II)

Desenhada no Mapa Mundi ou visualizada no Google Hearth, a Ilha de Páscoa apresenta um formato triangular, onde em cada uma das três pontas deste triângulo há um vulcão. Foi a erupção destes vulcões que fez emergir, esplêndida e lentamente, no meio do Oceano Pacífico, este lugar tão misterioso conhecido também como Rapa Nui. A lava destes três vulcões foi escorrendo, escorrendo, escorrendo... até fazer surgir no meio deles um solo. Este solo foi subindo, subindo, subindo... e criou-se ali condições favoráveis para o surgimento de uma floresta subtropical. Esta floresta foi crescendo, crescendo, crescendo... e transformou-se em um refúgio perfeito para abrigar vida naqueles inóspitas e vazias milhas náuticas distantes de todo o resto do mundo, e de todas as outras ilhas do Pacífico... Milhões de anos se passaram e chegaram ali, remando em canoas com balancim, alguns ancestrais polinésios vindos de outras ilhas do Pacífico. Estes ancestrais primitivos viviam em cavernas e eram escultores de grandes estátuas de pedra que chamamos de MOAI. Deixaram alguns vestígios de seu tempo remoto, como pinturas rupestres em grutas e artefatos de pedra lascada. Além dos moai, claro. Pronto! Resumi em um único parágrafo uma história que levou milhões e milhões de anos para se consumar. Assim vai ficar mais fácil transmitir a emoção do que é visitar cada canto daquela ilha...

Aqueles três vulcões dos quais falei são: TEREVAKA (o ponto mais alto da ilha, com 511m de altura), PUAKATIKI e RANO KAU. Foi neste último que vivi alguns dos momentos de maior êxtase da viagem. Quando estávamos na PRAIA DE ANAKENA, conhecemos um casal de brasileiros que disse ter se emocionado com o vulcão, tamanha sua beleza. E também com as casas-gruta primitivas que existem em suas encostas, um lugar chamado de ORONGO. Mapa na mão e jipe alugado: lá fomos nós vulcão acima, num fim de tarde, rumo às encostas da cratera do Rano Kau.
Fabiano e Otavia na borda do vulcão Rano Kau e o mapa triangular da Ilha de Páscoa.

Já pensou remar dentro de um vulcão?
Ficamos lá observando o vulcão, impressionados com uma beleza natural tão diferente da que estamos habituados. Para a tranquilidade de Otavia, que volta e meia perguntava se um daqueles vulcões começaria a borbulhar, as últimas atividades vulcânicas na ilha datam de 10 mil anos atrás. Isso foi muito-muito-muito antes mesmo da chegada dos primeiros humanos - aqueles ancestrais polinésios de que falei... 


Na borda do vulcão Rano Kau, de frente para a imensidão do Oceano Pacífico.

Vista de Orongo, a vila primitiva de grutas onde moravam antigos nativos da Ilha Páscoa, na borda do vulcão Rano Kau.
E as misteriosas grutas onde se abrigavam do vento constante da ilha os antigos nativos de Páscoa.
Estudos estimam que a ocupação da Ilha de Páscoa começou em algum tempo por volta do ano 900 d.C. Os pascoenses têm uma lenda que diz que o líder da expedição que povoou sua ilha foi um chefe chamado HOTU MATUA'A, que significa "o grande pai", que navegava em uma ou duas grandes canoas com sua esposa, seis filhos e alguns familiares. Hotu Matua'a, então, será o nome da nossa próxima canoa! A V1 que está pra nascer... São lendas e tradições orais contadas pelos nativos e registradas pelos primeiros europeus que lá chegaram. Na Polinésia, as muitas ilhas (do grego: poli = muitos, nesia = ilha) foram todas descobertas e povoadas assim, com a chegada de remadores desbravadores que se encorajavam a remar por dias a fio até chegar em outra ilha a ser descoberta...

Pôr-do-Sol em Orongo

A tarde estava linda em Orongo! Quando achávamos que assistir a um pôr-do-Sol do alto de um vulcão seria o maior presente daquele dia de viagem... eis que surge o nascer de uma gigante e atraente lua! Quando voltamos da pequena caminhada em Orongo para nosso jipe, lá estava ela... linda... nascendo atrás do Rano Kau! Foi extasiante ver uma lua daquela na Ilha de Páscoa!

Nascer da lua no Rano Kau.
Ela!
Energia que vem da lua!
Isso foi no Rano Kau, mas quero ainda contar o que descobri às bordas de um outro vulcão - o Rano Raraku - na outra extremidade da ilha. Trata-se de uma cratera famosa por ser conhecida como a "fábrica de moai". Lá tem dezenas de moai espalhados pelo chão... Mas este é o assunto da próxima postagem, onde vou finalmente contar um pouco sobre as estátuas de pedra da ilha. Afinal, como falar da Ilha de Páscoa e não postar nenhuma foto de moai?

ALOHA MEUS AMIGOS!
E ATÉ O PRÓXIMO VULCÃO!
Luiza Perin

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Relatos da Ilha de Páscoa (PARTE I)


Te Pito O Te Henua, ou seja, o umbigo do mundo. Era assim que o povo Rapa Nui se reconhecia e nomeava seus 163Km² de terra isolados no meio do Oceano Pacífico. Esse negócio de chamar o local de Ilha de Páscoa é muito recente - alguns séculos, somente - principalmente se comparado com a riqueza de cultura pré histórica que existe ali. O nome Ilha de Páscoa nada mais é que uma referência à natureza do primeiro contato europeu com o local. No dia 5 de abril de 1722 - um domingo de Páscoa - o navio do explorador holandês Jacob Roogeveen avistou a ilha pela primeira vez e, dali pra frente, todo o resto do mundo passou a conhecer a ilha das estátuas gigantes de pedra - e o pedaço de terra habitado mais isolado do Planeta! Mas muito antes disso, muuuuito antes, vivia ali um povo primitivo que vivia em cavernas e esculpia formas humanas em pedras.

Cheguei à Ilha de Páscoa bem próximo de um dia 5 de abril. Mas o ano era 2013. Mesmo com mais de 290 anos de diferença do meu "velho amigo holandês Jacob Roogeveen", tenho certeza de que me surpreendi tanto quanto ele! Aquelas estátuas inexplicavelmente erguidas de costas para o mar e de tamanhos colossais... Aquela sensação de isolamento e o perfume de maresia em todos os cantos da ilha, com cheiro de oceano profundo... Aqueles nativos - hoje já modernos - com olhar denso e carregado mas ao mesmo tempo atônito e curioso por conhecer as novidades que chegam pelo mar ou pelo ar... São percepções que só são sentidas na alma por quem vai à Ilha de Páscoa ao menos uma vez na vida. Em 1722 ou em 2013.

Cheguei, obviamente, ávida por remar! Olhava tudo em volta, queria tocar nas estátuas (mas não é permitido, e por um óbvio motivo de evitar o desgaste cumulativo de milhares de turistas fazendo o mesmo...), queria correr, gritar e pedalar cada vez mais rápido para percorrer a ilha toda. O único povoado da ilha é chamado de HANGA ROA e ali é possível alugar bikes por cerca de 15 mil pesos chilenos a diária (sim, a Ilha de Páscoa é um território chileno).


Minha prima Otavia e sua bike no Ahu Tahai.
Em Hanga Roa se concentram todos os poucos restaurantes do local, as pousadas, as lojinhas e mercados de artesanato, o aeroporto, etc.
Aluguei biclicleta por um dia e foi suficiente para conhecer tudo no vilarejo e adjacências. O turismo na Ilha de Páscoa é rústico. Não se deve esperar os melhores e mais rápidos atendimentos nos estabelecimentos comerciais. Como em quase todas as ilhas turísticas e relativamente pequenas que conheci, a vida ali passa devagar, as pessoas não têm pressa, os dias correm suaves e em função caminhar do Sol. O Sol nasce bem tarde, por volta das 8 horas da manhã. E se põe igualmente tarde, às 21 horas!

Este pôr-do-Sol é no ahu de moai mais próximo de Hanga Roa, o AHU TAHAI. Ali, turistas e jovens locais se encontrarm para ver o Sol se pondo atrás dos moai.

Pôr-do-Sol no Ahu Tahai.

Ahu Tahai, o mais próximo do vilarejo de Hanga Roa: lugar típico para assistir a um lindo pôr-do-Sol na Ilha de Páscoa.
Enquanto no Rio de Janeiro os remadores acordam cada vez mais cedo para treinar - os treinos em Itaipu (Niterói, RJ) começam às 5:45 da manhã, por exemplo - na Ilha de Páscoa se vai pro mar a partir das 17 horas. Às 17 horas começa as aulas dos "niños", e nestes momentos a enseada do porto de HANGA PIKO se enche de crianças em volta de canoas, gritos, remos, euforia e tudo de bom que envolve o universo das crianças e das remadas... Às 18h há o treino das "chicas" e às 19h a homarada vai toda pro mar em suas V1 cortando com velocidade as águas da face Oeste da ilha.

Crianças remando na enseada de Hanga Piko, o porto abrigado da Ilha de Páscoa.
Porto de Hanga Piko - lugar das aulas de canoa na Ilha de Páscoa.

Aula dos "niños" e Fabiano bem dirfarçado ali no meio, com sua prancha de stand up amarela, tentando negociar uma troca para remar na V1 das crianças...

Até que um menino Rapa Nui cismou de remar no SUP!

E lá foi o pequeno Rapa Nui...
Em um dia rodando de bike conheci tudo em Hanga Roa, o vilarejo local! Mas as maiores descobertas pela ilha eu fiz num jipe alugado por 30 mil pesos a diária! Aí sim, se vai a qualquer lugar da ilha!!! Histórias vividas a bordo do jipinho roots da Suzuki, trarei na próxima postagem!

Jipe roots que nos levou pra todos os cantos da Ilha de Páscoa. Mas não se pode passar de 60km/h se são ele treme todo!

IORANA, GALERA!
E ATÉ A PRÓXIMA POSTAGEM, COM MAIS HISTÓRIAS DE RAPA NUI...




quarta-feira, 20 de março de 2013

O nascimento de uma canoa havaiana

Preparativos para levar a canoa Ayra pela primeira vez ao mar na Praia de Itaipu. Março de 2013.
Dentre todos os meios de transporte, as embarcações são especiais. Não importa o tamanho ou a natureza a que se destinam, os barcos têm algo de diferente: eles recebem nomes.
Desbravar o desconhecido, viajar flutuando sobre uma fluida superfície com limites incertos e precisar dali retirar seu alimento levou o homem, desde os tempos mais remotos, a tratar com respeito e superstição o universo aquático. Para se lançar ao mar, o homem precisava confiar na proteção de seus deuses e na segurança de suas embarcações para acreditar que voltaria em segurança para casa.
Assim, as embarcações foram tratadas, desde os primórdios, como um membro da família - uma fortaleza de segurança no mundo desconhecido e cheio de intempéries que é o mar. A embarcação tinha a dupla função de transportar e proteger.
Na cultura polinésia o nascimento de uma canoa vem atrelado a uma série de rituais. Ao receber um nome, a canoa passava por uma cerimônia de batismo realizada por um sacerdote do povo, que na cultura havaiana era chamado de kahuna. Antes do formato atual como as conhecemos hoje, feitas em fibras de vidro ou de carbono, as canoas havaianas (ou polinésias) eram feitas com uma madeira chamada Koa (uma espécie de acácia havaiana) entalhada em um tronco só. Estes sacerdotes escolhiam a árvore que seria destinada para a construção das canoas e conduziam o ritual de batismo da mesma.
Mas no mundo todo, os barcos têm algo especial. Quando nascem para a vida, ganham uma identidade que os definem, ganham um nome e uma certa energia que os polinésios chamam de mana. Mas em qualquer mar e qualquer rio, podemos chamar de qualquer nome este sentimento especial que permeia o universo dos barcos.
Ayra é o nome desta minha canoa. A caçula de uma pequena frota de canoas havaianas com que me levam e trazem por esses mares afora. 




Ayra é um nome que significa “filha” em tupi. Ela nasceu da ideia de disseminar a prática da canoagem havaiana em Itaipu e da vontade de compartilhar com mais amigos este esporte. Uma canoa é concebida primeiro nas ideias, depois em um projeto, depois em um estaleiro, depois no seu batismo e, finalmente, no uso que damos a ela. Quando eu e Fabiano nos conhecemos, rapidamente ficamos muito amigos e descobrimos que tínhamos a mesma vontade de manter uma canoa em Itaipu e reunir um bom grupo de amigos para iniciar uma rotina de treinos naquela praia. E nasceu a ideia de uma canoa em sociedade, a nossa OC4 verde. 



Halau é a marca do nosso amigo Hugo Sanchez que produz, artesanalmente, lindas canoas havaianas com todo o mana e conhecimento que trás de suas experiências e aprendizados no Hawaii. Halau significa “casa da canoa” e é lá, em Jacarepaguá - no Rio de Janeiro - que ele faz nascer das nossas ideias e projetos as tradicionais canoas havaianas que imaginamos e desejamos.
As canoas sempre nasceram das florestas densas da Polinésia. Eram entalhadas a partir de árvores grossas escolhidas cuidadosamente pelo kahuna. Por isto no ritual de batismo misturava-se, em uma cuia, água doce – representando os rios das florestas de onde a canoa veio, e água salgada – para onde a canoa vai. A Halau fica nas encostas florestadas do Parque Estadual da Pedra Branca e, mesmo sendo feita de fibra de vidro, a Ayra nasceu do meio de uma bela floresta de Mata Atlântica no Rio de Janeiro.






De lá, atravessou o Rio de Janeiro confortavelmente em cima de uma pick up Toyota e chegou segura às areias da Praia de Itaipu, onde foi recebida com celebração pelo grupo de remadores que aos poucos cresce e se fortalece ali.


Depois de fazermos as amarras da ama, misturamos água doce do Santuário das Aparições de Nossa Senhora em Natividade com água do mar em um balde e cada remador jogou um pouco desta água e das suas próprias intenções e energias na canoa, que em breve iria para a água.
Nos rituais de batismo, costuma-se prender uma folha de ti, uma planta típica da Polinésia, na popa da canoa. Esta planta deve ficar ali até cair naturalmente durante as remadas. Para levar a canoa para a água pela primeira vez, os remadores devem segurá-la no alto e todos os remos devem ser de madeira, e não de carbono.














Os rituais de batismo de hoje não precisam de um sacerdote kahuna, mas precisam daquele mana de que falei: das boas vibrações das pessoas que estão em volta! Por isso a Ayra está muito bem batizada!




Aloha e até o próximo batismo!
Luiza Perin


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Descobrindo a Ilha Mãe


A Ilha Mãe fica a 2,3 quilômetros da Praia de Itaipu, em Niterói, RJ. Trata-se de uma área proteção integral pois faz parte do Parque Estadual da Serra da Tiririca desde outubro de 2012, quando foi publicado em Diário Oficial o decreto de ampliação desta Unidade de Conservação. 

A maior parte da ilha é de costão rochoso exposto, mas abriga também uma singela porção de Mata Atlântica e vegetação rupícola. Não existe praia para desembarque e a canoa deve ser ancorada na face Sul da ilha. Embarcações pequenas como caiaques e canoas individuais e duplas podem ser levadas para cima da rocha em dias de mar bem colado. Há uma poita utilizada por pescadores há alguns metros do costão. Para OC6, vale a pena amarrá-la à poita pela popa e jogar a âncora pela proa, ou vice-versa, para que a canoa não venha a bater no costão de pedra. 



Canoa Itaipu ancorada à beira da Ilha Mãe.
É importante estar munido de calçados apropriados para subir na ilha sem correr o risco de machucar os pés nas cracas, mexilhões e possíveis ouriços. E é importante, também, ficar atento para não escorregar nas partes de pedra lisa e molhada, principalmente com o vai e vem das ondas. 


Calçado emborrachado para proteger os pés das incrustações locais.
Este é um dos belos cenários que se tem no topo da Ilha Mãe. 
Para chegar ao topo existe uma pequena e escondida trilha que atravessa a vegetação mais densa da ilha e passa por um lindo campo de bromélias pela face Sul. Existe à beira d'água uma pequena toca na vegetação com vestígios claros da presença de pescadores no local. A trilha começa exatamente ali e passa por trechos íngremes onde o visitante encontrará uma corda para auxiliá-lo, fixada ali provavelmente pelos próprios pescadores que frequentam o local. 

Trecho aberto da trilha para o topo da Ilha Mãe.
Junto ao Morro das Andorinhas, a Ilha da Menina (verdinha, coberta de capim), a primeira que forma a tríade de ilhas: Pai, Mãe e Menina. Mais ao fundo, à direita, o Costão de Itacoatiara e o Alto Mourão: atrativos e belezas naturais do Parque Estadual da Serra da Tiririca.
Interessante também é caminhar pela parte baixa da ilha, beirando o costão rochoso pelo lado do continente.

Chaer e Carminha  num abraço inspirado pelo lindo visual da Ilha Mãe.
Também na parte baixa da ilha, em dias de mar bem calmo há uma piscina natural com singelas belezas subaquáticas para descobrir ou redescobrir. Quem é do mar sabe o quão comum e corriqueiros são nos costões rochosos os mexilhões, as cracas, as algas verdes e os peixes sargentinhos. Mas mesmo comuns, ainda assim são belos e admiráveis. 

Quando estudante de Biologia Marinha estava em uma saída de campo, em um barco rumo às Ilhas Cagarras quando, no caminho, avistei uma tartaruga marinha e apontei para ela gritando: "Uma tartaruga!!!". Uma colega perguntou: "Nunca viu?". "Vejo todos os dias quando remo" - respondi - "mas felizmente nunca perdi a capacidade de surpreender com elas!".


Esta capacidade de me surpreender mesmo com as coisas mais simples da natureza continua:



Craca comum nos costões rochosos do nosso litoral. Trata-se de um pequeno crustáceo bentônico (que vive encrustado) que habita dentro desta dura carapaça e se alimenta do fitoplâncton suspenso na massa d'água. Esta carapaça enrijecida o protege da força das ondas que batem das pedras. Na maré baixa, quando expostos ao Sol, se fecham para manter seu interior úmido. Quando a maré volta a subir, se abrem novamente.  Espécie: Balanus balanus
Mexilhão (Perna perna), alga verde (Ulva fasciata) e o peixe listrado sargentinho, organismos comuns na parte rasa dos costões rochosos do Sudeste, fotografados na beleza da simplicidade subaquática encontrada na Ilha Mãe. 
Fabiano na piscina natural da Ilha Mãe. Esta parte da ilha vai ficando gradativamente rasa em direção ao mar, formando uma lage onde quebram altas ondas em condições de swell e tamanho específicos. O surfe de OC4 têm funcionado muito bem ali...
Algumas pessoas acreditam que quanto menos se divulga um lugar pouco frequentado, mais protegido ele permanece. Por algum tempo eu acreditei nisto e já fui muito relutante em divulgar fotos de locais que considerava "secret spots". Este conceito de conservação da Natureza - de que para preservá-la é preciso manter o ser humano longe - vem de um pensamento ultrapassado que foi disseminado nos anos 70, quando a ideia de conservação ainda se relacionava com proposta de isolamento de áreas verdes em inúmeras Unidades de Conservação intocadas, onde a presença humana era proibida. Hoje eu entendo que quando um lugar bonito se torna mais conhecido pelas pessoas, aumentam as chances deste lugar ter seus aliados perante o Poder Público para que continue belo e preservado. Cito aqui os exemplos de Martim de Sá, no litoral de Paraty, e as Ilhas Maricás, a 6 kms da Praia de Itaipuaçu, em Maricá. Já fiz postagens neste blog sobre estes dois lugares, ambos no estado do Rio. Martim de Sá, paraíso de caiçaras na Costa Verde, sofre com sucessivas pressões de interesse econômico e especulações imobiliárias. Graças a paixão de jovens advogados e profissionais de diversas áreas que frequentam o local, além de centenas de outros aliados, movimentos em defesa de Martim de Sá têm sido criados e têm ganhado força perante a Lei e perante as tomadas de decisão do Poder Público no que diz respeito à preservação do local e à permanência do povo caiçara que ali vive, personificado na figura do Seu Maneco. Se Martim de Sá fosse um lugar secreto para poucos e escondido do mundo, que força política teriam os caiçaras para lutar pela terra de que têm direito? Ao divulgar a beleza das Ilhas Maricás, que frequento desde 2009, minha intenção é alardear para os remadores que a beleza daquele local pouco explorado por nós corre graves riscos de desaparecer. Com a instalação de um duto submarino do Comperj para o despejo de rejeitos petroquímicos a poucos quilômetros da costa de Itaipuaçu, a vida marinha daquele arquipélago é colocada definitivamente em cheque mate. Esgoto petroquímico contendo uma série de óleos graxos e substâncias venenosas que sequer conhecemos estarão suspensos na coluna d'água poluindo o mar e comprometendo o ecossistema marinho alcançando, inclusive, o topo da cadeia alimentar onde se encontram os pescadores que tiram do mar o seu próprio "emprego" e alimento. Quanto mais gente souber disso, melhor. Que possamos desenvolver senso crítico para avaliar que não existe progresso nestas circunstâncias. 

E voltando então à Ilha Mãe... pra quem não conhece, eis aqui! Ilha Mãe, atrativo do Parque Estadual da Serra da Tiririca.


Ilha Mãe visualizada a partir do Google Earth. Ao Norte, observa-se a "península" que forma a lage onde quebram as ondas surfáveis. De amarelo, o croqui da trilha que leva ao topo da ilha.
TODO O VERDE E O AZUL DA NOSSA BANDEIRA PARA DESCOBRIR, REMAR E DESBRAVAR. IMUA!!!

Aloha e até a próxima ilha a ser desvendada!
Luiza Perin