sábado, 20 de setembro de 2014

Descobrindo a Ilha Mãe - PARTE II




Com meu SUP inflável, perfeito para desembarque em ilhas.

Continua sendo a minha vontade de remar até uma ilha distante o que me move. Esse "distante" pode ser a 55km ou 130km ou logo ali, a apenas 2km. 
Remar o seu próprio barco, desbravar um local desconhecido, descobrir e explorar: estes sentimentos e ações devem ser um dos mais antigos e primitivos que vêm acompanhando a humanidade desde os primeiros tempos.
Olhar além do mar e sentir aquela vontade de buscar algo no horizonte deve ter sido um sentimento  dominante em muitos de nossos ancestrais. E daí começaram as grandes navegações da história. Os fenícios (1.400 a.C.), os egípcios (3.350 a.C.), os vikings, os polinésios (10.000 a.C.) e europeus foram povos que se destacaram por suas desenvolvidas artes de navegação.
Movidos por um desejo parecido com o meu ao visitar a Ilha Mãe neste 20 de setembro de 2014,  foi assim que muitos anônimos se lançaram ao mar em busca de descobertas e assim também que alguns nomes fizeram história ao atender seus anseios de buscar o novo além do horizonte.

A Ilha Mãe fica a 2,5km da Praia de Itaipu, em Niterói, RJ. Seu território faz parte do Parque Estadual da Serra da Tiririca, assim como as outras duas ilhas próximas: a Ilha do Pai (também chamada de Terceira) e a Ilha da Menina. Possui vegetação típica dos costões rochosos da região Sudeste, com bromélias, cactos e vegetação baixa, salvo a presença de algumas palmeiras. A maneira mais agradável de se chegar até lá é remando, e dessa vez eu fui de SUP inflável da Art in Surf (race 12'6). Da areia da praia é possível avistar a ilha e sentir aquela "vontadezinha" de remar até lá. 
Para os iniciantes, a remada até a Ilha Mãe pode levar até 40 minutos. A travessia do canal entre a Ilha da Menina e a Ilha Mãe pode ser dura, dependendo das condições do mar e do vento. O desembarque seguro também está diretamente relacionado com as condições. O conselho que deixo aqui é que se evite dias com vento forte. Quando digo vento forte, quero dizer qualquer vento acima de 8 nós nas classificações dos sites de previsão do tempo. 

Desembarquei na ilha auxiliada pelo amigo Jonas, um pescador de 65 anos que vive ali. Mesmo já tendo ido até lá outras vezes, não deixo de sentir gosto de descobertas cada vez que vou. O que me surpreendeu desta vez foi a avistagem de dois lagartos enormes, de cerca de 1 metro, que vi tão rapidamente que não tive tempo de fotografar. Outra surpresa para mim foi descobrir uma fenda na rocha que praticamente divide a ilha em duas metades, porção Leste e porção Oeste. Esta fenda tem cerca de um metro de largura e profundidade que varia, calculo eu, de uns 20 a 50 metros, transmitindo uma imponência inimaginável para os visitantes que acharem que a beleza da ilha está apenas nas suas bordas. 


O belo visual da Região Oceânica de Niterói, com montanhas do Parque Estadual da Serra da Tiririca.

Detalhe de bromélia, planta típica da vegetação local.


Cactus, planta títica da vegetação local.

Fenda na rocha, que divide a ilha em duas metades.

Jonas, o pescador que mora na Ilha Mãe, no início da fenda que divide a ilha.


O barco do pescador Jonas emborcado na pedra e a minha prancha inflável boiando amarrada na poita.



A densa vegetação de bromélias da ilha e o visual da Região Oceânica ao fundo.



Muitas bromélias.



O visual da Ilha do Pai, ao fundo.






A parte baixa da ilha, com uma planície de laje que com maré baixa e mar calmo fica exposta, sendo possível caminhar sobre ela.



O pescador Jonas (sem camisa), de 65 anos, e seu amigo.



A pequena enseada da Ilha da Mãe, local perfeito para o desembarque, e meu SUP boiando na água, amarrado à poita Ao fundo, a Ilha do Pai.

Minha prancha race inflável da Art in Surf se tornou, depois desta remada, minha mais nova prancha predileta! Perfeita para expedições, descobertas e remadas do gênero. 

A expansão de antigas tribos, impérios e governos para além de seus territórios, descobrindo ilhas e continentes novos, trouxe também a expansão da própria forma de pensar do ser humano. Desde os tempos antigos da navegação egípcia (há relatos de que foram eles que inventaram o remo e o leme) até os tempos áureos das grandes navegações europeias, o ser humano expandiu seus horizontes com as descobertas além mar. Foi assim há mais de 3mil anos antes de Cristo e continua sendo, até hoje, com qualquer um de nós que se proponha a descobrir, desbravar e remar. 

Foi com este sentimento que retornei, no fim da manhã, remando feliz em meu novo SUP favorito, para a Praia de Itaipu neste sábado de setembro. Certamente, as conquistas e descobertas de novos lugares trouxeram para o homem primitivo a auto estima de que ele precisava para desenvolver sua forma de pensar e seus modos de vida. E foi esta remada, as descobertas e o papo despreocupado com o pescador Jonas que me inspiraram para mais este relato no blog Vou de Canoa. Talvez remar e descobrir são duas coisas que expandem pensamentos.

Aloha e até a próxima descoberta!


P.s. 1 - Neste blog há uma outra postagem com mais detalhes sobre a Ilha Mãe com o título "Descobrindo a Ilha Mãe".


P.s. 2 -
  • Consulte as previsões das condições do mar e do vento antes de remar até a Ilha Mãe.
  • Respeite o Jonas, o pescador local.
  • A ilha é limpa e livre de lixo, mantenha-a limpa.
  • Nunca abra caminhos na vegetação, caminhe apenas onde há brechas de rocha livre na vegetação. 


Voltando para a Praia de Itaipu, feliz. Ilha da Mãe ao fundo.

Sapatinho de borracha para subir da pedra, alguns metros de cabo para amarrar o SUP na poita, bolsa estanque para o celular e camelback com água e algumas barrinhas de ceral nos bolsos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Molokai to Oahu - O Canal dos Ossos no Havaí

Medalha de chegada da prova Molokai2Oahu - edição 2014.

Antes de se transformar na tradicional competição de paddleboard, canoas e stand up paddle no Havaí, a travessia a remo do Ka'awi Channel - o temido Canal dos Ossos entre as ilhas de Molokai e Oahu - já fazia parte do treino de resistência para a tropa de guarda-vidas de Oahu. 

Mas bem antes disso, histórias milenares de travessias deste misterioso canal foram construídas por milhares de polinésios ao longo da povoação deste isolado arquipélago no Oceano Pacífico. Muitas vidas foram sucumbidas ali, tragadas por ondas, ventos ou tubarões; mas muitos heróis também nasceram diante das desafiadoras conquistas entre estas ilhas. 

Foi em busca deste sentimento de grandes desafios e conquistas que o  havaiano Dawson Jones idealizou, em 1997, a primeira edição da Molokai2Oahu, a prova de paddleboard, canoas e stand up paddle mais desafiadora e respeitada no mundo até hoje. São 32 milhas (52kms) de desafio que atraem centenas de remadores de diversas nacionalidades todos os anos. 


As condições clássicas do canal proporcionam os downwinds mais perfeitos e imponentes que um remador pode encontrar em toda sua vida. Mas as adversidades no caminho variam desde tempestuosas condições que a natureza impõe até as infinitas limitações do próprio corpo e da mente diante dos extremos. Por este motivo, é unânime a frase que o escapa do pensamento dos que cruzam a linha de chegada: "Este canal não é para qualquer um". 

Experimentei este sentimento e falei para mim mesma esta frase no dia 27 de julho de 2014 ao completar, em 6h16min, em dupla com meu marido Fabiano Faria, a 18a edição da Molokai2Oahu. A medalha que ganhamos será a lembrança da nossa vontade, determinação e dedicação a este projeto nos seis meses de treino que antecederam a prova. O Ka'awi Channel não é para qualquer um que desista fácil de seus objetivos. Mas ele está lá, à disposição de qualquer um que se proponha ao desafio e queira remar atrás dele.


Se você quiser um dia fazer parte desta roda de oração antes da largada, se quiser chegar na ilha de O'ahu remando, se tiver vontade de remar por 52 quilômetros em um canal com ventos de 25 nós e ondas oceânicas de até 3 metros de altura, acredite: este canal é para você, e não para qualquer um...


Roda de oração minutos antes da largada, na ilha de Molokai.



Aloha e até a próxima postagem! 
Luiza Perin 
30 de julho de 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

Mahalo - A Gratidão Polinésia

A cachoeira de Halawa Falls, na Ilha de Molokai, no Havaí.

"Mahalo Nui Loa" é uma expressão em havaiano que significa "muito obrigado" e denota um agradecimento profundo e sincero. Sua tradução eu já conhecia, mas o verdadeiro sentimento de gratidão que representa para o povo polinésio eu pude sentir no dia em que percorri uma deserta e sinuosa estradinha a beira mar na ilha de Molokai, no Havaí. Chovia muito. Éramos 9 amigos brasileiros dentro de um  carrinho amarelo alugado. O destino era a cachoeira de Halawa Falls. 

Certa vez li que "não existe caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho". Fato é que uma de nossas maiores alegrias neste dia foi chegar à magnífica e misteriosa cachoeira escondida no Halawa Valey, o destino final. Mas as surpresas pelo caminho nos fizeram lembrar que a felicidade realmente está na caminhada. Mesmo sabendo que estávamos na estrada certa, aproveitamos a rara presença de uma pessoa  na paisagem para perguntar se estávamos perto ou  longe. E foi então que enxerguei, nos olhos de um verdadeiro nativo havaiano, o vivo significado do "Mahalo Nui Loa". O homem parecia um típico personagem polinésio, mas era real. Vestia apenas uma tanga e adornos de palha. Nós devíamos também parecer para ele como típicos personagens ocidentais. Mas também éramos reias. E o que aconteceu ali foi o encontro de duas culturas, de dois mundos, de três línguas e de dez seres humanos. Nos comunicamos em inglês, português e havaiano. Nos surpreendemos com seus costumes, suas vestes, seu estilo de vida e sua curiosidade por nós. Explicava que "kane" é a palavra havaiana para "homem" e "wahine" é a tradução para "mulher". Presenteou cada um com uma viseira de palha feita por ele. A chuva apertou e nos encolhemos de frio, e então ele disse: "Por que sentir frio? A chuva é um presente!". Olhou para o céu, abriu a boca e pôs a língua pra fora, como quem quer beber as gotas que caem, e completou: "It's a bless!", gritou ele, "Mahalo Nui Loa!".

A chuva era uma benção e não havia motivo para seu corpo forte e robusto sentir frio. Neste momento percebi quão simples é a vida deste homem, que vive seus dias em conexão com a natureza, pescando em uma rasa bancada de coral na ilha de Molokai. O "Mahalo Nui Loa" deste havaiano nos lembrou de agradecer pela simplicidade. Isso pode parecer um discurso meio "hippie", pode parecer banal reproduzir e valorizar esta pequena passagem desta grande viagem pelo Havaí. Mas senti que aquele momento no meio da caminhada fez a felicidade de 9 brasileiros e um havaiano naquele dia, mesmo sendo no meio do caminho...

"Mahalo Nui Loa Ke Akua Malama Pono", em profundo agradecimento somos abençoados pelo Sagrado. 

Foi isto que esta simples história havaiana me ensinou...


A sinuosa estradinha a beira mar na ilha de Molokai, no Havaí, que leva ao Halawa Valey.

O nativo havaiano que nos mostrou o verdadeiro sentimento da gratidão polinésia nos presenteando com viseiras de palha feitas por ele.

O nativo havaiano da ilha de Molokai com suas vestes típicas e as viseiras de palha feitas por ele mesmo, com que nos presenteou.


Mahalo Nui Loa e até a próxima postagem! 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Saldo da Maui2Molokai2014


Saldo da Maui2Molokai2014 para mim, Luiza Perin, em minha primeira temporada havaiana de downwind: 47km de desafios concluídos  com sucesso. 
Completei a prova que cruza o canal entre as ilhas de Maui e Molokai, no Havaí, remando uma prancha de 14 pés de stand up paddle, em 5h30minFui a última das últimas a chegar dentre os mais de cem remadores de diversas nacionalidades inscritos na prova. Mas a luta para cruzar a linha de chegada foi dura e desafiadora, e isto me permite desfrutar de um sentimento de conquista talvez tão grande quanto aquele que deve ter sentido o havaiano Connor Baxter, grande vencedor da prova (completou em 3h04min).

Além das adversidades naturais do percurso, tive doses extras de adrenalina nos minutos que antecederam a largada. O capitão do barco de apoio que me acompanharia lado a lado durante a remada ligou, quando faltava apenas 30 minutos para a largada, informando que, lamentavelmente, teve um problema com o transporte de seu barco e que seria improvável que ele conseguisse chegar a tempo da largada. A presença de um barco de apoio ao lado do competidor é importante em uma prova como esta, mas nem todos os remadores contratam um para si. Já em outras provas como a Molokai2Oahu, o barco de apoio individual para remador é obrigatório e só participa da competição o atleta que contrata um barco para si. Como as distâncias são grandes e cruzam canais oceânicos no mar do Pacífico, a função dos barcos de apoio é acompanhar, para dispor de suporte e segurança, o atleta durante todo o percurso da prova. 
Às 9h55 da manhã de 12 de julho de 2014, a exatos cinco minutos de soar a corneta de largada da minha primeira prova no Havaí, meu barco ainda não havia aparecido no mar. Enquanto todos os competidores, posicionados em suas pranchas, olhavam atentos e alertas para frente esperando o primeiro milésimo do som do alarme de partida, com remos a postos, eu, aflita, olhava para trás, ansiosa a procura de um barquinho verde e pequeno que deveria estar ao meu lado para seguir comigo os 47km de remada que teria pela frente. 
Soou a corneta. Uma multidão de pranchas zarpa pelo mar infinito do Havaí, distanciando-se da pequena enseada de pedras em Lahaina, na ilha de Maui, deixando um grande rastro branco na água provocado pelas fortes remadas de seus braços. E eu, ainda aflita, permanecia ajoelhada em minha prancha, olhando por todos os lados e com milhões de incertezas na cabeça. 
Longos e infinitos minutos se passaram e de repente eu avisto um barquinho verde claro, a toda velocidade, vindo em direção da enseada. Só podia ser ele! Acenei com o remo para que me reconhecesse e esperei ele se aproximar para poder ler o seu nome, que me daria a certeza de que era mesmo o meu barco de apoio, identificando as características informadas pelo capitão por telefone. 


O barco chegou perto de mim e seu comandante não parava de se desculpar: "I'm so sorry!" Eu não me importei, não fiquei chateada, apenas agradeci por ele ter chegado e dei graças a Deus quando identifiquei seu nome escrito no bordo: CORAJOSA!
Scotty Olive, um havaiano gente fina que já viajou pela América do Sul e se simpatizou pelo Brazil, pode ter - muito por acaso - um dia batizado seu barco assim. Mas a maneira emocionante com que chegou até mim neste dia, naqueles minutos iniciais desta importante travessia, me deram a certeza de que não foi por acaso que, justamente este barquinho chamado Corajosa, foi o meu barco de apoio no Havaí. Afinal de contas, não é qualquer havaiano que batiza seu barco com um nome em português. E menos ainda, não é qualquer nome em português que é usado para nomear um barco no Havaí. Seu nome era uma palavra necessária para mim exatamente naquele dia. No feminino. E no mar do Havaí. "Let's go, my friend! Let's go!" E lá fui eu... Finalmente pude mirar o meu destino na ilha de Molokai e remar para frente, exatamente como, momentos antes, todos os outros remadores faziam. O caminho foi longo. Os primeiros 20kms do percurso foram muito difíceis pois o vento ainda não estava perfeitamente alinhado com a rota de navegação. Além disso, sem conhecer o caminho eu não tinha uma referência exata no horizonte, e isto às vezes é o maior inimigo do remador determinado.
Quase desisti por duas vezes. Cheguei a sentar na prancha, ao lado do barco, e falar para o capitão que remaria apenas por mais alguns minutos e subiria no barco de apoio, desistindo da prova. Mas na segunda vez que fiz isso ele apontou para um diminuto retângulo branco no longínquo litoral da ilha de Molokai. Era a chegada. Há 25kms de distância. Horas mais tarde eu encostava minha prancha no porto de Kaunakakai, no Hawaian Canoe Club, com um dos maiores sentimentos de conquista e transformação da vida. Ventos e ondas soprando e empurrando a favor precisaram ser domados e surfados. Sentimentos de medo, de dúvida e insegurança ao longo das horas foram se transformando em confiança, certeza e alegria de estar ali. 
Certa vez li uma frase de autoria desconhecida mas que nunca esqueci, que era mais ou menos assim: "Todos que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si. Levam um pouco de nós". Sou daqueles que acreditam na "alma dos barcos", na energia que eles carregam. Por isso tive a certeza de que, se ganhei um pouquinho mais de coragem nesta vida, foi porque estive ao lado do barquinho havaiano "Corajosa" pelos 47kms entre ilhas de Maui e Molokai no Havaí. 

Aloha e até a próxima postagem! 
Luiza Perin 
17 de julho de 2014



sexta-feira, 4 de julho de 2014

Primeira dupla mista brasileira na Molokai2Oahu - Hawaii

POSTER DA MOLOKAI2OAHU 2014
Comprei meu primeiro SUP no final de 2012. Era uma prancha race com 12’6 de comprimento e 27 polegadas de largura da Art in Surf. Minha primeira remada com ela foi um downwind* de 18km da Praia de Itacoatiara (Niterói - RJ) à Praia de Copacabana. Esta primeira remada prescreveu meus caminhos no mundo do stand up paddle e aquela velha história de entrar na água com uma embarcação a remo e desaparecer na linha do horizonte em busca do destino continuou me fascinando.

Agora eu estava em pé - stand up - olhando o mar de um andar acima do que em minha canoa havaiana. Precisava conquistar do zero naquela prancha tudo o que eu já possuía com minha canoa: equilíbrio, estabilidade, firmeza, segurança, etc. Novo brinquedo, novos desafios. Fabiano, que então era apenas um amigo e me ajudou a escolher a prancha certa, me ensinava com tanta atenção e paciência que começou a dar os primeiros sinais de que aquela história não terminaria ao fim de algumas remadas, muito menos em qualquer praia. Mais tarde, descobrimos que nossa história estava apenas começando. Minha vontade de estar na água remando cresceu e eu não sabia que isso era possível. O que antes era completamente preenchido pela canoa passou a ser ocupado também pelo SUP e aos poucos fui ganhando a confiança necessária para permanecer em pé, remando em frente.

FOTO DA MINHA MINHA PRIMEIRA REMADA NA PRANCHA RACE NOVA, SAINDO DA PRAIA DE ITACOATIARA COM DESTINO À COPACABANA, EM OUTUBRO DE 2012.
Hoje, a próxima praia do nosso destino se chama Maunalua Bay. Dentro de poucos dias embarcamos para uma viagem dos sonhos: competir juntos, no Havaí, a prova de stand up paddle mais importante e respeitada do mundo - a Molokai to Oahu. São 32 milhas (51,5km) de distância entre uma ilha e outra com ondas e ventos de 25 nós (47km/h) nos empurrando para nosso destino. A verdadeira e mais pura alma do downwind - aquela brincadeira que comecei a experimentar há pouco menos de dois anos, em 2012, quando zarpei na Praia de Itacoatiara com Fabiano, mirando Copacabana como linha de chegada.

Este será o 18° ano de realização desta tradicional prova, mas será apenas o primeiro em que a organização permitiu a categoria mista no desafio. Eu e Fabiano vamos disputar juntos por uma colocação com as outras únicas cinco duplas mistas inscritas, uma da Suíça, uma do Canadá e três do Havaí. Mas meu maior desafio será, acima das duplas, deixar no mar Havaí o melhor de mim, meu maior esforço, minhas maiores doses de adrenalina, concentração e diversão. Além de ser a meca do surfe, o Havaí é também o suprassumo do remo e do downwind.

LISTA DAS DUPLAS MISTAS INSCRITAS NA 18a EDIÇÃO DA MOLOKAI2OAHU, E PRIMEIRA EDIÇÃO COM CATEGORIA DE DUPLAS MISTAS. 
Espero aprender muito sobre estas modalidades nesta temporada havaiana e voltar com mais experiências e conhecimentos para continuar prosperando no esporte. Sempre gostei de desafios. Há nove anos sou remadora de canoa havaiana e há menos de dois ingressei no stand up paddle. A pergunta é: “Por que não optei fazer esta prova de canoa, já que é um esporte em que tenho mais experiência?” Porque há pouco menos de dois anos não foi apenas uma prancha branca da Art in Surf que entrou na minha vida. Junto dela veio um remador de downwind também, e nós dois queremos competir e remar juntos, lado a lado*, no Canal dos Ossos que separa as ilhas havaianas de Molokai e Oahu. E é pra lá que nós vamos!
Imua, em havaiano, pode ser traduzido como “adiante, siga em frente”. 
Imua!

*Modalidade específica de alguns esportes aquáticos em que se aproveita a direção alinhada do swell e do vento para navegar a favor das condições, possibilitando pegar ondas em pleno mar aberto.

*A categoria de duplas na Molokai to Oahu é disputada no formato de revezamento. Cada dupla possui um barco que a acompanha durante o percurso da prova. Os dois remadores revezam os momentos de remada durante o trajeto: enquanto um está remando o outro fica no barco e vice versa. 


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dicas de Itaipu para o Aloha Spirit - o que fazer, onde comer e como entender o mar

Aloha é uma expressão havaiana usada como forma de saudação ou despedida pelos nativos daquele paradisíaco arquipélago polinésio. Seu significado vai além da tradução de um simples "olá" e "adeus". Aloha pode ser usado para expressar afeto, paz, amizade, hospitallidade, etc. Esta palavra se tornou popular e passou a ser falada também por não havaianos quando surfistas estrangeiros começaram a descobrir o Hawaii e levavam para seus países o lifestyle havaiano.


A OC4 Paikea com as ilhas Mãe e Pai ao fundo. Praia de Itaipu.
Fim de tarde em Itaipu. Foto: Luiza Perin
É neste clima de aloha que Niterói recebe pela primeira vez em 2014 o Aloha Spirit, um evento que une diversas modalidades aquáticas como canoa havaiana, surfsky, stand up e natação. O evento aconterá na Praia de Itaipu nos dias 24 e 25 de maio e prevê a participação de cerca de 500 atletas. Se você é um deles, esta postagem é pra você! Conheça algumas coisas que você pode fazer em Itaipu e Itacoatiara no final de semana que estiver em Niterói para esta competição. Iorana, bem vindo! E aloha!

A Praia de Itaipu é uma das mais pitorescas da cidade de Niterói. Situada entre uma laguna (Lagoa de Itaipu) e uma montanha (Morro das Andorinhas), sua vila de pescadores local resistiu aos chamados "avanços do progresso e urbanização" e preservou ares bucólicos e tranquilos de uma comunidade que vive primordialmente da pesca tradicional. Em razão disso, o Estado reconheceu sua importância e a importância de preservar a biodiversidade marinha local decretando recentemente a criação de uma RESEX ali. RESEX é a sigla para Reserva Extrativista, um tipo de Unidade de Conservação da natureza caracterizada por preservar uma cultura extrativista local - neste caso, a cultura da pesca - para a manutenção da biodiversidade. A RESEX de Itaipu dá aos pescadores tradicionais o direito de praticar a pesca de forma sustentável naquela região, proibindo a pesca industrial dentro de seus limites que, além da Praia de Itaipu, abrangem também as praias de Itacoatiara, Camboinhas e Piratininga.

Ao chegar para o campeonato, o competidor logo verá na faixa de areia da Praia de Itaipu uma série de barcos de pesca artesanal, simples e rústicos. No meio deles, para os remadores mais ligados, três canoas havaianas se destacarão: Itaipu, Ayra e Paikea. São as canoas do Itaipu Surf Hoe, a escola de formação de remadores de Luiza Perin (eu), Fabiano Faria (meu marido) e Fabio Valongo, situada a poucos metros da areia.

Chegando em Itaipu a rua começa a ficar mais arborizada, já emanando o clima de "lugar tranquilo de praia". Ao se aproximar da praia o remador verá uma praça redonda que serve também como retorno dos veículos, uma vez que a estrada termina ali. E é ali também que algumas linhas de ônibus têm o seu ponto final. Exatamente à esquerda desta praça está o estacionamento do Itaipu Surf Hoe, uma grande área gramada ao pé de uma rocha com vegetação de mata atlântica e a sede da escola de remo ao fundo. Banheiros feminino e masculino com chuveiro, água para lavar as embarcações no final do evento e, acima de tudo, segurança.


Área do Itaipu Surf Hoe situada a 50 metros da areia. 

ONDE COMER
Uma boa sugestão para almoço é apreciar um prato de frutos do mar de algum restaurante local. Depois de competir, guarde sua prancha ou canoa com segurança no Surf Hoe - se estiver com seu carro estacionado lá - e caminhe por dentro da vila dos pescadores até encontrar o restaurante que mais lhe agrade. Panela Furada, Restaurante do Jorginho, Bar Garoupa, Bar do Paulinho e Restaurante Canoas são alguns deles. Todos com vista para a enseada do canto de Itaipu, com o pôr-do-sol mais maravilhoso de Niterói durante o verão.

À noite, se quiser um barzinho movimentado e com gente bonita, não deixe de conhecer o Bar e Restaurante Areias, situado na esquina do trevo de Itacoatiara, a dois minutos da Praia de Itaipu. Para aqueles que preferem um canto romântico e mais sossegado, a Pizzaria Tuti Amici é a melhor pedida. Um casarão arborizado trasnformado em restaurante que serve bons vinhos e uma ótima pizza, a cinco minutos de Itaipu.



O QUE FAZER ALÉM DE REMAR

A Região Oceânica de Niterói está situada no vale de uma cadeia de montanhas que fazem parte do Parque Estadual da Serra da Tiririca. Toda área verde observada pela redondeza faz parte desta Unidade de Conservação que preserva florestas, costões rochosos, mangues, rios e restingas. Há algumas trilhas rápidas que podem ser percorridas em 30 minutos para deslumbrar lindas vistas da região e da paisagem do Rio de Janeiro. Do Morro das Andorinhas e do Costão de Itacoatiara é possível ver o Pão de Açucar, Corcovado, Pedra da Gávea e vários outros pontos característicos do Rio de Janeiro.

Vale a pena também uma passagem pela Praia de Itacoatiara para conhecer o berço de grandes surfistas de elite como Bruninho SantosGuilherme Herdy e Ricardo Tatuí e entender porquê esses caras se destacaram tanto com o surfe no pé. Itacoatiara pede respeito sempre. 


Praia de Itacoatiara vista a partir do Morro das Andorinhas. Trilha de 30 minutos com acesso pela Rua da Amizade, em Itaipu, próximo à Igrejinha de São Sebastião.  Foto: Luiza Perin
Praia de Itacoatiara em primeiro plano e as praias de Camboinhas e Piratininga ao fundo. Na paisagem o Pão de Açucar e montanhas do Rio de Janeiro também ao fundo. Vista do Costão de Itacoatiara, 30 minutos de caminhada com acesso pelo bairro de Itacoatiara na portaria do Parque Estadual da Serra da Tiririca (Rua das Rosas, n. 24). Foto: Luiza Perin
Localização de Itaipu na Região Oceânica de Niterói. A Ilha Mãe é um excelente passeio para remadores. Na postagem "Descobrindo a Ilha Mãe", neste blog, falo sobre ela. 
O Morro das Andorinhas e a Ilha da Meninna. Ali é a enseada onde acontecerá o Aloha Spirit. Foto: Luiza Perin


Janaína, a dançarina havaiana do meu carro, na rua de acesso à Praia de Itaipu.  
Praça central da Praia de Itaipu, no ponto final de algumas linhas de ônibus e o Morro das Andorinhas ao fundo, de onde se tem uma bela vista das praia da Região Oceânica e do Rio de Janeiro. 
Janaína chegando em Itaipu. Mar ao fundo e a placa da Prefeitura mostrando um bom motivo para se estar ali! 
Condição de balneabilidade: RECOMENDADO
Entrada do estacionamento do Itaipu Surf Hoe à esquerda da praça central de Itaipu. 
Entrada do estacionamento do Itaipu Surf Hoe. 
E finalmente sobre o mar, algumas informações rápidas:


  • O Sudoeste entra de frente na Praia de Itaipu.
  • O mar pode estar bem grande em outras praias como Itacoatiara, Camboinhas e Piratininga, mas em Itaipu sempre há condições mais favoráveis para embarque e desembarque. 
  • No meio da praia, a 30 metros da areia, há uma laje rasa que o remador deve evitar passar por cima com sua prancha ou canoa. 
  • Na Ilha Mãe também há uma laje em sua face Norte, ou seja, apontada para a praia. Esta laje deve ser evitada pois ali quebram ondas irregulares e cavadas que podem provocas incidentes. Já quebrei uma ama de OC4 ali. Ao fazer o contorno da ilha, evite se aproximar muito dela por isso. 
  • Na Ilha da Menina há uma corrente de retorno praticamente constante empurrando o remador para a areia. Ao passar no canal entre a Mãe e a Menina, procure se aproximar desta última e pegar a esteira que corre em direção à praia, bem colado na pedra. 
  • No canto direito da praia há o Canal de Itaipu, que divide Itaipu e Camboinhas. Ali quebram umas ondinhas ótimas para aprender a surfar ou para surfar de stand up. 
Ilha da Mãe em primeiro plano e Ilha do Pai ao fundo. 
Ilha da Menina ao fundo. 
ALOHA (SPIRIT) E ATÉ A PRÓXIMA POSTAGEM!
Luiza Perin




terça-feira, 20 de maio de 2014

30 Motivos para Amar a Canoa Havaiana

Um golfinho passando entre duas canoas do Itaipu Surf Hoe. 
Volta e meia me pego buscando em palavras alguma definição que explique o meu amor pela canoa havaiana. Criei o blog Vou de Canoa para tentar transformar este sentimento em leitura. Desde 2005, quando comecei a remar com o instrutor Marcelo Depardo - um dos precursores do esporte no Brasil, a canoa passou a fazer parte da minha vida de forma cada vez mais intensa. 

Hoje dou aulas de canoa e stand up paddle na Praia de Itaipu, onde mantenho a escola de formação de remadores Itaipu Surf Hoe. A proposta do Surf Hoe é como a do blog: dividir com mais pessoas este amor pelo mar. Mais do que uma simples guarderia e centro de remadores, naquele espaço a ideia é transformar vidas.

Já escrevi sobre este tema em postagens anteriores. A canoa é uma analogia da vida: "Quanto mais longe minha remada no mar, mais perto chego de mim mesma"

Nunca encontrei uma única definição para esta paixão. Mas encontro em muitas palavras, em muitos textos aqui publicados e em uma remada após a outra a minha certeza: a remada me transforma!

A cada remada a natureza me manda um sinal de que estou no caminho certo ao compartilhar este amor com outras pessoas. No último final de semana, a natureza me mandou mais de 30 sinais de uma só vez. Em um dia especial, em que levei uma querida amiga cadeirante para uma experiência na canoa, cerca de 30 golfinhos nadaram por vários minutos ao nosso redor. 

Dani com a equipe do Itaipu Surf Hoe.


























No verão de 2011 Dani foi acometida por uma rara doença autoimune chamada neuromielite óptica, que afeta a medula espinhal e o nervo óptico. Por ser uma doença rara, pouca coisa se sabe a respeito e a medicina ainda não conseguiu explicar o que gera esta agressão do próprio corpo em seus tecidos. No primeiro ano de sua luta para combater a doença a Dani fez um tratamento no renomado centro de reabilitação do Hospital Sarah Kubitschek de Brasília, onde teve uma experiência com o remo, e desde então surgiu a ideia do que concretizamos na Praia de Itaipu nesta manhã de sábado. 

Sete remadores do Itaipu Surf Hoe se reuniram com um único objetivo: presentear a Dani com a energia do mar. Mas para nossa surpresa foi a energia da Dani na canoa que nos trouxe um presente. Uma mulher guerreira, de ótimo astral e força de vontade foi quem mobilizou nossa ida ao mar neste manhã, quando remamos em um mar liso e perfeito, sem vento e sol ameno com a presença de mais de 30 golfinhos!


O rastro dos golfinhos passando entre as canoas e a comemoração dos remadores.
Foto do remador de SUP Maurílio Soares.
Dani na canoa do Itaipu Surf Hoe.







A Dani sentada na canoa enquanto levamos a embarcação com segurança para a areia. 

A doença da Dani, conhecida também como Doença de Devic ou NMO (neuromielite óptica), ainda não tem cura. A Dani toma medicamentos há dois anos para evitar novos surtos de inflamação em sua medula. Quando a inflamação acabar, ela poderá voltar a andar, e ela tem lutado constantemente para isso! Trabalhando corpo e mente, a Dani vem se nutrindo de todos os elementos necessários para sua recuperação. Fisioterapia, foco, força e

Buscando palavras para a definição de todo aprendizado da canoa havaiana, encontrei neste dia apenas duas que resumem alegria, determinação, força de vontade e fé: DANI AMERICANOEm sua página no Facebook ela conta detalhes de sua luta e fala com esclarecimento sobre a doença.

Quanto aos golfinhos, eles transformaram a vida de cada remador daquela canoa em mais alegria! Eles foram o presente que a Dani nos trouxe neste dia! 

Aloha e até a próxima postagem!
Luiza Perin