terça-feira, 3 de maio de 2016

Baptême de Pirogue Polynésienne


Tive a horna de ser convidada pela organização da Vendee Va'a, em Les Sables D'Olone, França, a participar de um batismo de canoa polinésia ao lado de dois respeitados remadores tahitianos - um homem e uma mulher - e de um padre francês. Éramos quatro seres humanos de dois continentes e um arquipélago e de três mundos distintos posicionados à proa de uma canoa e de frente para o mar do Atlântico Norte, reunidos ali para canalizar nossas intenções em uma só energia: as bênçãos para a nova canoa. 

Quando conduzo batismos de canoa no Brasil procuro incorporar ao ritual os conhecimentos absorvidos em leituras sobre a cultura polinésia, em conversas com pessoas experientes e em aprendizados como o vivido no dia de hoje. Mas estava ao lado de um tahitiano que viajou mais de 30 horas para chegar a França e cuja cultura ancestral viajou por séculos até chegar ao ocidente em forma de esporte. O que eu teria para acrescentar naquele momento seria apenas minha demonstração de humildade, meu sentimento de gratidão por fazer parte deste rico momento e minhas melhores intenções para o mana desta nova canoa do clube francês CKCL. Mas os ritos, estes ficariam por conta dos tahitianos e do padre. E aquele momento foi como ter um dos meus melhores livros abertos diante de mim, mas com acontecimentos ao vivo e a cores. Foi um momento especial e de fortes emoções. Para que não me falhasse o francês, que estudei por tantos anos na vida, escrevi meu discurso em uma folha de papel e foi com muita emoção que li este texto diante de autoridades francesas da cidade de Les Sables D'Olone, de todos os organizadores da competição e de remadores tahitianos e franceses, além dos dois remadores compatriotas brasileiros dentre os mais especiais da minha vida: meu marido Fabiano e nosso amigo-irmão Douglas que nos convidou a embarcar com ele neste desafio de participar da Vendee Va'a. 



Discurso em Francês e tradução para o português logo abaixo: 

Dans toutes les régions du monde les bateaux sont les seules moyens de transport qui reçoivent des noms. Nous ne donnons pas des noms à des voiture, des avions ou des autobus. Mais quand les bateaux naissent, ils semblent intégrer en tant que membre de notre famille. De plus petits pirogues à grands navires nous pouvons voir les noms qui lui donnent sa propre personnalité, ce que les Polynésiens appellent mana. 

La culture polynésienne qui se propagent à toutes les îles du Pacifique nous enseigne que donner un nom aux bateaux est une tradition ancienne de peuples de la mer e et le baptême symbolise un rituel de respect pour la principal outil qui a permis l'occupation de toutes les Îles de ce vaste océan de Nouvelle-Guiné à Rapa Nui e de Aotearoa à Hawaï. La confiance em leurs dieux et leurs pirogues permis la realization des grandes épopées entre les îles. Les pirogues était son monde et la seule plateforme de survie entre le ciel et la mer, alors qu'ils ne trouvaient pas le terres. 

Le baptême donne au bateau une autre dimension que celle d'un moyen de transport. Les pirogues ont pris des hommes compétents, des femmes fértiles, des vieux sages, des plantes, arbre à pain, des porcs, des poulets, mais surtout leurs croyences et la source de leurs culture. 

Aujourd'hui, cette culture enseigne aussi a nous Brésiliens des importantes apprentissage sur la valeur de notre propre culture. Avant la colonization européenne le Brésil était une région sauvage occupée par les indiens qui vivaient dans les forêts, les rivières et la mer. Ils utilisaient aussi des pirogues taillées dans un seule tronc, ils avaient d'habitude de peindre leurs corps avec de l'argile et des teinture de plantes, ils avaient connaissance de l'arcs et des flèches e des rames et ils savais aussi interpréter les enseignements de la nature, comme les Polynésiens.

Au Brésil y il a environ 40 clubs de pirogue polynésien sur 8.000 km de côte. Dans chacune de ces bases de rameurs là, un petit morceau de Polynésie arrive au coeur des brésiliens et nous fait voir que la pirogue est plus q'un sport. 

Aujourd'hui ce le jour de dire maururu a ces peuple Tahitian. Nous respecterons toujours la culture associée à ce sport. Nous sommes ici pour apprendre e pour partager notre amour pour la pirogue avec vous. Nous avons apporté un peu d'eau de mer du Brésil pour qu'on puisse mélanger l'énergie d'Atlantique Sud dans ce baptême.

Merci a notres amis Français et sourtout aux organizateurs de Vendee Va'a qui ont créé l'occasion de ce discours. Je vous remercie au nom de mon peuple Brésilien et vous invite vous tous pour faire du pirogue avec nous au Brésil.

Tradução: 

No mundo todo os barcos são o único meio de transporte que recebem nomes próprios. Não damos nomes aos carros, aos aviões ou aos ônibus. Mas quando nasce um barco, ele parece vir a integrar como mais um membro de nossa própria família. Desde as menores canoas aos grandes navios podemos ver os nomes que lhe dão personalidade própria, aquilo que os polinésios chamam de mana. 

A cultura polinésia que se espalha por todas as ilhas do Pacífico nos ensina que dar nome a um barco é uma tradição antiga dos povos do mar e o batismo simboliza um ritual de respeito pela principal ferramenta que permitiu a ocupação de todas as ilhas deste vasto oceano, da Nova Guiné a Rapa Nui e de Aotearoa ao Havaí. A confiança em seus deuses e em suas canoas permitiu a realização de grandes façanhas entre as ilhas. As canoas eram então seu mundo e sua única plataforma de sobrevivência entre o céu e o mar enquanto não encontrassem terra. 

O batismo atribui às canoas mais que uma categoria de meio de transporte. As canoas levavam homens bravos, mulheres férteis, velhos sábios, plantas, fruta-pão, porcos, galinhas, mas sobretudo suas crenças e a origem de sua cultura. 

Hoje, esta cultura ensina também a nós brasileiros um importante aprendizado sobre o valor de nossa própria cultura. Antes da colonização européia o Brasil era uma região selvagem ocupada por índios que viviam nas florestas, nos rios e mares. Eles também utilizavam canoas de um tronco só, tinham o hábito de pintar seus corpos com argila e tintura de plantas e tinham conhecimento de arco e flechas, de remos e sabiam também interpretar os ensinamentos da natureza, como os polinésios. 

No Brasil existem hoje aproximadamente 40 clubes de canoa polinésia distribuídos em 8 mil quilômetros de costa. Em cada uma destas bases de remadores um pequeno pedaço da Polinésia chega ao coração dos brasileiros e nos faz enxergar que a canoa é mais que um esporte. 

Hoje é o dia de dizer maururu a este povo tahitiano. Nós sempre respeitaremos a cultura associada a este esporte e estamos aqui para aprender e para compartilhar nosso amor pela canoa com vocês. Trouxemos um pouco de água do mar do Brasil para que possamos misturar a energia do Atlântico Sul a este batismo. 

Obrigada a nossos amigos franceses e sobretudo aos organizadores da Vendee Va'a que permitiram a ocasião deste discurso. Lhes agradeço em nome do meu povo e os convido a todos para remar conosco no Brasil.

Merci, Maururu e até a próxima postagem! 
Luiza Perin, 3 de maio de 2016. 




quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

E Ala E - O despertar havaiano

Remadores do Itaipu Surf Hoe* durante o canto do despertar: E ala e! Itacoatiara - Niterói - RJ.
     A antiga tradição havaiana era repleta de cultos a divindades da natureza e rituais sagrados. Antes do abacaxi e dos ukuleles, que são referências da cultura havaiana posteriores a chegada do homem branco, o Havaí já possuía uma forte identidade em sua cultura tradicional. Uma das principais caracterísitcas deste povo do mar e das canoas era sua profunda relação com o mundo espiritual e os cantos sagrados.
     Não existia escrita no Havaí antigo. Para manter viva a história de seus ancestrais era preciso memorizar genealogias familiares. Para expressar seus conhecimentos e conclusões a respeito do mundo sobrenatural, suas teorias sobre a criação do Universo e o funcionamento da natureza, eles faziam danças - chamadas de hula - e entoavam cantos sagrados (chamados em inglês de chants ou, em havaiano, de mele).
     Um dos cantos de que mais gosto fala sobre o nascer do Sol. É o canto  "E Ala E", expressão havaiana que se traduz por "despertar". Este canto fala sobre o caminho do Sol desde o momento em que nasce no Leste até chegar ao ponto mais alto no céu. É como um chamado para o despertar matutino.
     Os cantos havaianos são formados  por frases simples e repetitivas, assim como os mantras hindus. Acho que esta simplicidade traduz o momento histórico daqueles povos em tempos remotos, que registravam nos cantos suas mais importantes descobertas sobre a observação da natureza e sua percepção sobre o Sagrado.
     Eis o canto do despertar havaiano, que compartilho aqui no Vou de Canoa com aqueles que também conseguem enxergar na simplicidade  do Sol nascente uma grandiosa manifestação do Sagrado, assim como os antigos havaianos o faziam.

E ala e
Ka la i ka hikina
-
I ka moana
Ka moana hohonu
-
Pi'i ka lewa
Ka lewa nu'u
-
I ka hikina
Aia ka la
E ala e

Esta é uma tradução livre feita por mim, fruto de estudos da língua e da cultura. Pode não ser a mais exata e perfeitamente fiel para a língua havaiana, mas traduz a mensagem do canto:

Desperte!
O Sol está nascendo no Leste

Está nascendo no mar
Das profundezas do mar

Está escalando o céu
Até o ponto mais alto do céu

No Leste está o Sol
Desperte!

Em algumas remadas de canoa havaiana, voltamos nossos rostos e canoas para o nascer do Sol e entoamos o E Ala E. Itacoatiara - Niterói - RJ.

E Ala E ao Leste nas águas de Itacoatiara - Niterói - RJ.
*Itaipu Surf Hoe: escola de canoa havaiana que conduzo em Itaipu. Para maiores informações, visite nossa funpage no Facebook: Itaipu Surf Hoe.


E Ala E
E até a próxima postagem!
Luiza Perin
23 de dezembro de 2015

sábado, 14 de novembro de 2015

Vou de Canoa até as Ilhas Cagarras


Imagine que você está em uma praia admirando o horizonte e de repente uma ilha lhe chama especial atenção. De tão distante, você só pode distinguir a sua forma acinzentada se destacando no horizonte azul claro do céu. Seu olhar não desvia mais da ilha longínqua, você cerra um pouco os olhos tentando lhe descobrir algo mais, mas nada vê. Seus pensamentos sobre ela aumentam e você começa a listar uma série de perguntas  secretas, só suas, a respeito daquela ilha... Como deve ser vista de perto? Qual distância entre esta praia e aquela ilha? Que tipos de animais devem viver lá? 

Se você já teve algum dia pensamentos como estes à beira do mar, continuemos com nossa brincadeira de imaginação. 

Imagine agora que algum amigo lhe convida para remar em uma canoa havaiana... Será então justamente neste dia, ou deste dia em diante, que talvez você possa começar a responder todas aquelas perguntas e conhecer todas as ilhas em que seus olhos descansarem quando estiver sentado em uma praia olhando o mar...  

Remando uma canoa e navegando para onde seus desejos te levarem, é possível conhecer todas as ilhas que seus olhos enxergarem. Por isto o nome deste blog é Vou de Canoa...

De quase todo o litoral do Rio de Janeiro e Niterói é possível ver um maravilhoso arquipélago localizado a apenas seis quilômetros da famosa Praia de Ipanema, no Rio: as Ilhas Cagarras. Este arquipélago abriga um verdadeiro ninhal de aves marinhas como gaivotas, atobás, mergulhões, trinta-réis e outros mais, além de uma riquíssima biodiversidade subaquática. 

Já fui de canoa até as Ilhas Cagarras incontáveis vezes desde que comecei a remar, em 2005, e não canso de admirar sua imponência e beleza quando chego perto delas. Curioso é que, há dez anos, também nunca me canso de admirá-las de longe quando vejo sua silhueta cinzenta no horizonte, e por isto sempre me sinto motivada a voltar para  encontrar mais respostas sobre sua natureza. A medida que vamos chegando perto da ilha, o cinza vai dando lugar ao verde da vegetação e ao ocre da pedra. A cada quilômetro vencido é possível ir decifrando, aos poucos, suas cores e formas. Palmeiras e aves vão se revelando. Texturas e relevos também. Este é um dos maravilhosos sentimentos de descoberta quando "Vou de Canoa" até qualquer ilha...

Hoje, fui de canoa com meus alunos  remadores do Itaipu Surf Hoe, minha escola de canoa havaiana na Praia de Itaipu, região oceânica de Niterói. Acumulamos mais 34 quilômetros de remada em nossas bagagens de mar e lá descobrimos novas respostas para aqueles tradicionais questionamentos e devaneios à beira mar... "Como será lá naquela ilha?" Por isso, fomos de canoa. 

Aloha e até a próxima ilha! 
Niterói, 14 de novembro de 2015.
Luiza Perin 




quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Palestra do Amyr Klink

"O mar é uma estrada que já está feita." Amyr Klink

A conectividade virtual, por incrível que pareça, é algo que nos prende mais do que podemos imaginar. A obsessão pela conectividade revela um sentimento muito comum hoje em dia de que sem ela estamos completamente perdidos e isolados. Ledo engano. Em 1984, quando Amyr Klink atravessou o Oceano Atlântico em seu barco a remo durante cem dias sozinho entre o céu e o mar, ele não tinha um GPS nem tampouco Internet. Seu elo com o mundo eram baterias e uma caixa de rádio. No entanto, ele não estava perdido e sabia exatamente sua localização geográfica e para onde estava indo. Naquele isolamento, ele sentiu que sua conexão com o Planeta estava mais forte do que nunca.

Esta foi a conclusão do Amyr Klink, revelada em uma interessante palestra que tive a oportunidade de assistir no dia 06 de outubro de 2015, no Forte de Copacabana.

Palestra do Amyr Klink no Forte de Copacabana em 6 de outubro de 2015.
Para falar sobre esta real conectividade com o mundo, ele mostrou uma foto de sua casa em Paraty: uma singela casinha à beira mar ladeada por muitos e muitos hectares de Mata Atlântica exuberantemente verde, densa, intransponível e legalmente protegida sob a sobreposição de diversas Unidades de Conservação estaduais e federais, onde jamais haverá a construção de estradas (assim esperamos). Em sua casa não existe luz elétrica nem internet. Também não existem estradas até lá, onde só é possível chegar pelo mar. No entanto, é um dos lugares do mundo onde o Amyr se sente mais conectado com qualquer ponto do Planeta pois, de lá, pode pegar seu barco e velejar para qualquer parte do mundo. Para comprar pão na padaria de Paraty, ele pega seu barquinho e rema por 35 minutos até o centro da cidade. Da mesma maneira, para ir aos lugares mais longínquos lda Terra, também de lá, ele solta as amarras de seu veleiro e viaja para os extremos do Planeta e para tantos outros lugares quanto sua mente livre e sua capacidade de elaboração de projetos incríveis pode lhe permitir.

O mar é uma estrada que já está feita. Escutei esta frase no início de sua palestra e anotei para me lembrar sempre deste sentimento de liberdade e conectividade que posso sentir ao entrar nas minhas canoas. Este sentimento de ligação com o resto do mundo vem pela água, descendo pelos rios e levando ao mar. 
De canoa sinto que posso remar sempre até onde meus olhos enxergam. Enquanto houver mar diante de meus olhos, poderei continuar remando.

Aloha e até a próxima conexão!
Luiza Perin
Barco a remo em que o Amyr Klink atravessou o Oceano Atlântico em exposição temporária no Forte de Copacabana. Outubro de 2015. 
Remadores de canoa havaiana de Niterói ao lado do navegador que carrega histórias de grandes inspirações: Amyr Klink. Forte de Copacabana. Outubro de 2015.
Remadores de canoa havaiana de Niterói diante do barco a remo do Amyr Klink e ao lado da Marina Klink, esposa do grande navegador. Exposição temporária no Forte de Copacabana. Outubro de 2015. 
Eu em minha rede de Wiffi favorita: minha canoa havaiana OC1 batizada de Guardiã. Com ela, a conexão é garantida.



domingo, 16 de agosto de 2015

O Batismo de uma Canoa Havaiana

As raízes primitivas da cultura polinésia eram passadas de geração em geração de forma oral ou por meio de cânticos que evocavam os antepassados do povo, o culto aos diversos deuses da natureza e a vida extremamente vinculada ao mar e ao cultivo da terra. Canoas faziam parte do cotidiano não só como meio de subsistência para a pesca, mas também como forma de vida. Um número incontável de canoas polinésias devem ter singrado o Oceano Pacífico de Oeste a Leste e de Sul a Norte transportando não só bravos guerreiros em busca de novas terras e novos deuses, mas também os costumes e a cultura destes povos. Tanto carregaram em suas enormes canoas estes primitivos remadores e homens do mar, que podemos até hoje conhecer suas bagagens. O que levavam não era apenas porcos, galinhas, fruta-pão e suas famílias. Carregavam a bordo a pré-história dos povos austronésios - os primeiros seres humanos navegantes e grandes conhecedores das estrelas - que em uma época remota e difícil de mensurar começaram a se aventurar em suas embarcações a remo e à vela, saindo da Oceania com destino às ilhas do Oceano Pacífico. Bem antes das primeiras grandes e conhecidas navegações europeias, estes povos se lançaram ao mar nas suas estreitas canoas que tinham como principal característica um estabilizador lateral, que hoje o mundo conhece como outrigger.

Em uma cuia que deve ser de material natural, misturamos água do mar com água de cachoeira. A água do mar representa o novo universo da canoa, onde ela vai navegar, e a água doce representa a floresta onde as antigas canoas de madeira eram concebidas. 
Como parte da cultura e dos costumes destes antigos povos da polinésia, depois de entalhadas em um só tronco de árvore as canoas eram batizadas à beira do mar em rituais sagrados que lhe davam uma alma - que os polinésios chamam de mana - e assim trariam mais proteção e sucesso aos seus viajantes. Batizar uma canoa ou dar nome a qualquer tipo de embarcação é algo comum não só na Polinésia como em todo o universo náutico. Em qualquer lugar do mundo onde existem homens no mar, existem barcos com nomes e identidades próprias. Dar nome a um barco significa dar vida e personalidade ao meio de transporte que por muitos anos na história da humanidade foi o principal responsável por permitir ao homem desbravar o desconhecido, chegar mais longe do que seus olhos podiam enxergar e descobrir o seu próprio mundo. Foi assim há muitos séculos, mas ainda hoje continua igual este sentimento de respeito aos barcos que nos levam mares e rios a fora.

Por volta dos anos 1400, quando se deram os primeiros contatos do homem branco ocidental com os nativos de pele dourada das ilhas do pacífico, suas histórias passaram a ser registradas em gravuras, manuscritos e livros. A literatura moderna sobre os antigos ritos polinésios apresenta diferentes descrições de rituais de batismo de canoas. Foi resgatando fragmentos deste misterioso assunto e deixando aflorar de forma natural o sentimento de respeito pelas canoas, que batizamos as duas OC6 Alli Nui e Nalo Wi’wiki com uma cerimônia simples na Praia de Itaipu, Niterói, RJ. Tradicionalmente os batismos são celebrados pelo kahuna, o sacerdote ou guia espiritual de uma tribo, que era também responsável por escolher a árvore que seria abatida para a construção da canoa. Mas com boas e verdadeiras intenções de manter viva a cultura milenar deste esporte, qualquer remador pode batizar sua canoa.

O nome havaiano para a cerimônia de batismo é lolo ana i ka wa'a, uma frase que pode ser aproximadamente traduzida como "dar cérebro a uma canoa". O batismo da Alii Nui e da Nalo Wi’wiki foi especial. Em uma noite estrelada e ao som das ondas fizemos uma grande roda abraçando as duas canoas. Alli Nui é o nome dos grandes reis e rainhas de linhagem pura entre os havaianos, ou seja, filho de havaiano, neto de havaiano, bisneto, tataraneto e por aí vai... Ela é a mais nova canoa do Itaipu Surf Hoe. Com seu batismo e a simbologia de seu nome, a nova canoa representa uma nova fase de conquistas e a manutenção permanente da divulgação da cultura do esporte pelos seus remadores. Já a Nalo Wi’wiki ganhou um mana que seu nome em havaiano traduz: vagalume. Uma canoa que foi concebida para remadas noturnas na enseada de Botafogo, a serem guiadas sob o olhar cuidadoso e guerreiro da minha grande amiga Letícia Lana. O papel da Nalo será iluminar de forma alegre a vida e as remadas de quem nela navegar.

O processo de mistura das águas do mar e de cachoeira e as canoas ornamentadas com leis havaianos e plantas da região. Preso a popa da canoa, um ramo de folhas naturais colhidas em uma árvore da Praia de Itaipu. Este ramo deve permanecer na canoa mesmo quando o ritual de batsimo de encerrar, e ali deve ficar até que se desprenda naturalmente. 
Eu e Letícia misturando a água de cachoeira que ela pegou nas Paineiras com a água do mar de Itaipu.
Faz-se uma roda circulando as canoas a serem batizadas e cada participante, um a um, pega a cuia com a mistura de águas e derrama um pouco do líquido e de suas boas intenções sobre a canoa. Neste momento, cada um pode falar uma palavra ou frase bonita que irá se integrar ao mana da nova canoa. 
Todos os participantes da cerimônia contribuem com a integração do mana da nova canoa. 
Todos os participantes da cerimônia contribuem com a integração do mana da nova canoa. 
Todos os participantes da cerimônia contribuem com a integração do mana da nova canoa. 
Para jogar a mistura de águas sobra a canoa, podemos utilzar uma concha ou o ramo de folhas naturais que será fixado na popa da embarcação. Para esta cerimônia, usamos uma cuia com mosaicos de madeira da África do Sul e uma grande concha do mar do Caribe. Energia cosmopolita para as canoas Alii Nui e Nalo. 
A querida Sylvia Salustti, que emocionou a todos com sua poderosa voz em um canto lírico durante a cerimônia. Entre uma oração havaiana e outra, ela nos presenteou com um Ave Maria deslumbrantemente hipnótico, que arrancou lágrimas da galera. 

Os remos utilizados para a remada do batismo devem ser todo de madeira.
Na foto, um remador usa a grande concha para derramar um pouco da mistura de águas e muito de de suas boas intenções sobre a nova canoa. 

A energia keiki das crianças, levando um mana de pureza para as novas canoas. 

Livre de tabus e de vergonhas, homens e mulheres, adultos, jovens e crianças se enfeitam ao estilo polinésio, com leis havaianos e coroa de flores na cabeça, para celebrar com estilo o ritual de batismo que preserva  o espírito wa'a da cultura do esporte (wa'a = canoa, em havaiano).
Roda em volta das canoas batizadas. 

A cerimônia é finalizada com todos os participantes levantando a canoa bem alto para levá-la ao mar para a primeira remada com o mana incorporado à canoa, Para nós, remadores de canoa havaiana, manter vivos estes rituais é um sinal de respeito às raízes desta cultura, uma forma de manter presente os costumes milenares desta prática que avançou oceanos e continentes para chegar ao Oceano Atlântico na forma de esporte.

ALOHA E ATÉ A PRÓXIMA POSTAGEM!
Luiza Perin
Niterói,16 de agosto de 2015






quarta-feira, 8 de abril de 2015

Remadores de Fibra - PARTE II - Um abraço!


Abraço da pequena Alexia, menina de 5 anos com Fibrose Cística.
Abraçar - ato de envolver com os braços uma pessoa, animal, planta ou coisa. É usado, dependendo da cultura, como forma de demonstração de afeto. Por meio do abraço podemos cumprimentar ou expressar sentimentos de amor, carinho, compaixão, saudade, gratidão, etc. O abraço pode expressar sentimento que vem da alma. Pode ser verdadeiro ou falso, grande ou pequeno, curto ou prolongado. E também pode ser físico ou espiritual. Se abrimos os braços em forma de crucifixo no alto de uma montanha, por exemplo, isto pode ser um simples um alongamento lateral. Mas se no mesmo topo de montanha abrimos os braços por pura alegria na alma, isto pode ser um abraço à vida!
Minha prima Otavia no vulcão Orongo, em nossa viagem à Ilha de Páscoa em 2013.

#abraçoespiritual
A expressão "abraçar uma causa" é usada quando alguém ou um grupo de pessoas se apropria dos sentimentos de outro alguém ou outro grupo e os toma como seus, passando a tê-los como próprios sentimentos, lutando ou defendendo pelos mesmos objetivos que o seu próximo.
Entre braçadas e abraços, os Remadores de Fibra abraçaram a causa da Fibrose Cística, conheceram a luta do Instituto Unidos pela Vida e escolheram remar em forma de abraço, com o intuito de divulgar a doença genética para que mais estudos e pesquisas encontrem um dia sua cura. 
Usar os braços é algo que o remador gosta de fazer. Temos braços fortes e treinados para remar e para abraçar causas do bem com bastante força. Com a força de nossos braços.
Os Remadores de Fibra abraçaram a causa da Fibrose Cística e remaram por 12h45min de Niterói a Ilha Grande, percorrendo 130km entre a Praia de Itaipu e a Praia do Abraão. 
"Pûliki" é a palavra em havaiano para "abraço".
Abraço de amiga. Eu abraçando minha amiga remadora Milla em nossa chegada na Praia do Abraão.
Quando temos muitas pessoas para abraçar ao mesmo tempo, trocamos energias dando as mãos em um círculo. Fotografia: Fred Gomes
Meus amigos, o casal Milla e Bruno. Fotografia: Fred Gomes
Abraçando minha amiga Tati. Fotografia: Fred Gomes
Quando temos muitas pessoas para abraçar ao mesmo tempo, trocamos energias dando as mãos em um círculo. Fotografia: Fred Gomes

Quando temos muitas pessoas para abraçar ao mesmo tempo, trocamos energias dando as mãos em um círculo. Fotografia: Fred Gomes
Quando temos muitas pessoas para abraçar ao mesmo tempo, trocamos energias dando as mãos em um círculo. Fotografia: Fred Gomes
Abraço de gorila. Eu e meu marido Fabiano na casa que alugamos em Maui,no Havai, na temporada de downwinds de 2014.
Um abraço e até a próxima postagem!
Luiza Perin
08 de abril de 2015
(Em busca de apoio para a modernização deste blog....)

domingo, 5 de abril de 2015

Remadores de Fibra - PARTE I


Equipe completa na Praia do Abraão - Ilha Grande. Fotografia: Fred Gomes

O capitão Max, responsável pela traineira Rio Boa Sorte, relata: "Quando dizia aos meus colegas do clube, também donos de barco, que acompanharia um grupo de 14 atletas que sairiam remando da Praia de Itaipu até a Ilha Grande, todos perguntavam: - Eles são loucos? Eu respondia: - Não. São de fibra." 

O Remadores de Fibra nasceu da parceria da escola de canoa havaiana Itaipu Surf Hoe com o projeto Equipe de Fibra, do Instituto Unidos pela Vida, com o intuito de fortalecer o propósito destes dois últimos de divulgar a doença genética Fibrose Cística, uma doença que afeta os sistemas respiratório e digestivo de crianças gerando graves complicações a sua saúde. Remar de Niterói a Ilha Grande defendendo a causa de crianças com uma doença ainda sem cura foi o combustível desta travessia.  

A largada foi a 1h da manhã de sexta-feira, 03 de abril de 2015. Ver o amanhecer do dia em plena remada foi lindo. Mas o início, durante a noite, foi de arrepiar. Sair a 1h da manhã com a lua completamente cheia e a superfície do mar prateada com seu reflexo foi algo emocionante. As vagas estavam grandes mas não tinha vento forte, apenas uma leve brisa soprando pelas costas. A canoa subia e descia nas ondas, seguindo o balanço do mar, mas não havia respingo de água nos remadores, não havia aspecto de mar mexido, apenas o silêncio daquela noite enluarada quebrado pelo som dos remos deslizando na água. Senti algo que os antigos da polinésia deviam sentir ao lançar suas canoas na vastidão do Pacífico para chegar em ilhas remotas sem saber se voltariam: sensação de desbravamento. A segurança com que eu estava iniciando esta travessia em pleno Século XXI, em uma canoa fabricada e equipada com tecnologia e acompanhada por um barco de apoio, sem dúvida era bem maior que a dos ancestrais polinésios, que precisavam dar as primeiras braçadas à luz da lua ou sob as estrelas sem prever em quanto tempo chegariam ao seu destino. E sem nem mesmo ter a certeza de que chegariam... Mas a confiança em nós mesmos e o imenso respeito que sentíamos pela canoa nesta madrugada, acredito, eram os mesmos que o destes ancestrais homens do mar. Em momentos ímpares assim, remando para longe em um fino casco de barco, o sentimento de cuidado e respeito pela canoa fica mais vivo. Ela passa a ser a nossa pequena ilha de segurança naquele horizonte escuro. Passa a ser parte da nossa família, um integrante da nossa equipe e um elemento primordial para o sucesso ou fracasso da empreitada. Molokai, a canoa vermelha do Itaipu Surf Hoe, acredito que tenha passado da sua infância para a adolescência após esta expedição. Trabalhou incansavelmente por 12 horas e 45 minutos sem interrupção, amadureceu e ganhou respeito ao vencer os 130km entre a Praia de Itaipu e a Ilha Grande sem nos deixar em apuros.
Passando pela Laje da Marambaia, na reta final da remada. Fotografia: Fred Gomes
Ao amanhecer já estávamos praticamente na metade do caminho, no início da Restinga da Marambaia. Dali em diante a paisagem não se altera. É monótono e o remador tem que controlar a ansiedade, pois são 43km sem mudança do cenário: mar, faixa de areia, restinga e céu, nada mais. Somado aos movimentos contínuos e repetitivos da remada, este trecho do percurso leva quase a uma hipnose e é preciso força e determinação para sair dali com a moral ainda erguida.

Na chegada, pegamos uma forte correnteza no Canal de Sepetiba para entrar na Baía da Ilha Grande, mas logo avistamos nosso objetivo final e aí foi só alegria. Pisamos juntos na areia grossa da Praia do Abraão - os 14 remadores que se revezaram no trajeto - demos as mãos fazendo uma roda envolvendo a canoa e agradecemos a Deus e a todas as forças do Universo por conspirarem para que tudo desse certo: condições de mar perfeitas, canoa em ótimo estado e atendendo a todas as nossas expectativas, plena sintonia entre os atletas e um excelente trabalho da equipe de apoio composta pelos três tripulantes da traineira Rio Boa Sorte, dois massoterapeutas, um cinegrafista e um fotógrafo.

A equipe dos Remadores de Fibra foi recebida na Praia do Abraão por crianças com Fibrose Cística e seus familiares. Fotografia: Fred Gomes
A equipe dos Remadores de Fibra foi recebida na Praia do Abraão por crianças com Fibrose Cística e seus familiares. Fotografia: Fred Gomes
O ponto alto da nossa chegada foi o encontro com duas crianças com Fibrose Cística, Antony e Alexia, seus familiares e demais defensores da causa, que foram até a Ilha Grande só para nos receber e agradecer pela campanha iniciada. Naquele momento sentimos que ao fortalecer nossos braços e corpos com aquela remada, era como se estivéssemos levando mais força para eles próprios ali na areia a nos esperar. Passamos a entender que quanto mais pessoas conhecerem a Fibrose Cística, mais atenção a doença receberá e, consequentemente, mais estudos e mais pesquisas poderão um dia encontrar sua cura.

O projeto Remadores de Fibra não termina com a chegada na Praia do Abraão. Pela divulgação da Fibrose Cística muitas águas ainda vão rolar, e digo isto nos dois sentidos da expressão, com remadas e campanhas em defesa da causa do Antony, da Alexia, do Pedro, da Thamires e de tantas outras crianças e jovens que um dia se descobriram com Fibrose Cística.

Em breve, aqui no Vou de Canoa, mais fotos e histórias sobre os Remadores de Fibra.

Esta remada teve o essencial apoio de:
  • Instituto Unidos pela Vida
  • Projeto Equipe de Fibra
  • Secretaria de Esporte e Lazer de Niterói
  • Toyota SGA Oceânica
  • Way Suplementos
  • Copy&Cor
  • Studio de Pilates Flavio Pontes
  • Instituto Collunas
  • Fred Gomes Fotografia
  • Adriano Diogo Filmes

Aloha e até a próxima postagem!
Luiza Perin (em busca de apoio para modernizar o layout deste blog...)