quarta-feira, 30 de julho de 2014

Molokai to Oahu - O Canal dos Ossos no Havaí

Medalha de chegada da prova Molokai2Oahu - edição 2014.

Antes de se transformar na tradicional competição de paddleboard, canoas e stand up paddle no Havaí, a travessia a remo do Ka'awi Channel - o temido Canal dos Ossos entre as ilhas de Molokai e Oahu - já fazia parte do treino de resistência para a tropa de guarda-vidas de Oahu. 

Mas bem antes disso, histórias milenares de travessias deste misterioso canal foram construídas por milhares de polinésios ao longo da povoação deste isolado arquipélago no Oceano Pacífico. Muitas vidas foram sucumbidas ali, tragadas por ondas, ventos ou tubarões; mas muitos heróis também nasceram diante das desafiadoras conquistas entre estas ilhas. 

Foi em busca deste sentimento de grandes desafios e conquistas que o  havaiano Dawson Jones idealizou, em 1997, a primeira edição da Molokai2Oahu, a prova de paddleboard, canoas e stand up paddle mais desafiadora e respeitada no mundo até hoje. São 32 milhas (52kms) de desafio que atraem centenas de remadores de diversas nacionalidades todos os anos. 


As condições clássicas do canal proporcionam os downwinds mais perfeitos e imponentes que um remador pode encontrar em toda sua vida. Mas as adversidades no caminho variam desde tempestuosas condições que a natureza impõe até as infinitas limitações do próprio corpo e da mente diante dos extremos. Por este motivo, é unânime a frase que o escapa do pensamento dos que cruzam a linha de chegada: "Este canal não é para qualquer um". 

Experimentei este sentimento e falei para mim mesma esta frase no dia 27 de julho de 2014 ao completar, em 6h16min, em dupla com meu marido Fabiano Faria, a 18a edição da Molokai2Oahu. A medalha que ganhamos será a lembrança da nossa vontade, determinação e dedicação a este projeto nos seis meses de treino que antecederam a prova. O Ka'awi Channel não é para qualquer um que desista fácil de seus objetivos. Mas ele está lá, à disposição de qualquer um que se proponha ao desafio e queira remar atrás dele.


Se você quiser um dia fazer parte desta roda de oração antes da largada, se quiser chegar na ilha de O'ahu remando, se tiver vontade de remar por 52 quilômetros em um canal com ventos de 25 nós e ondas oceânicas de até 3 metros de altura, acredite: este canal é para você, e não para qualquer um...


Roda de oração minutos antes da largada, na ilha de Molokai.



Aloha e até a próxima postagem! 
Luiza Perin 
30 de julho de 2014

terça-feira, 22 de julho de 2014

Mahalo - A Gratidão Polinésia

A cachoeira de Halawa Falls, na Ilha de Molokai, no Havaí.

"Mahalo Nui Loa" é uma expressão em havaiano que significa "muito obrigado" e denota um agradecimento profundo e sincero. Sua tradução eu já conhecia, mas o verdadeiro sentimento de gratidão que representa para o povo polinésio eu pude sentir no dia em que percorri uma deserta e sinuosa estradinha a beira mar na ilha de Molokai, no Havaí. Chovia muito. Éramos 9 amigos brasileiros dentro de um  carrinho amarelo alugado. O destino era a cachoeira de Halawa Falls. 

Certa vez li que "não existe caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho". Fato é que uma de nossas maiores alegrias neste dia foi chegar à magnífica e misteriosa cachoeira escondida no Halawa Valey, o destino final. Mas as surpresas pelo caminho nos fizeram lembrar que a felicidade realmente está na caminhada. Mesmo sabendo que estávamos na estrada certa, aproveitamos a rara presença de uma pessoa  na paisagem para perguntar se estávamos perto ou  longe. E foi então que enxerguei, nos olhos de um verdadeiro nativo havaiano, o vivo significado do "Mahalo Nui Loa". O homem parecia um típico personagem polinésio, mas era real. Vestia apenas uma tanga e adornos de palha. Nós devíamos também parecer para ele como típicos personagens ocidentais. Mas também éramos reias. E o que aconteceu ali foi o encontro de duas culturas, de dois mundos, de três línguas e de dez seres humanos. Nos comunicamos em inglês, português e havaiano. Nos surpreendemos com seus costumes, suas vestes, seu estilo de vida e sua curiosidade por nós. Explicava que "kane" é a palavra havaiana para "homem" e "wahine" é a tradução para "mulher". Presenteou cada um com uma viseira de palha feita por ele. A chuva apertou e nos encolhemos de frio, e então ele disse: "Por que sentir frio? A chuva é um presente!". Olhou para o céu, abriu a boca e pôs a língua pra fora, como quem quer beber as gotas que caem, e completou: "It's a bless!", gritou ele, "Mahalo Nui Loa!".

A chuva era uma benção e não havia motivo para seu corpo forte e robusto sentir frio. Neste momento percebi quão simples é a vida deste homem, que vive seus dias em conexão com a natureza, pescando em uma rasa bancada de coral na ilha de Molokai. O "Mahalo Nui Loa" deste havaiano nos lembrou de agradecer pela simplicidade. Isso pode parecer um discurso meio "hippie", pode parecer banal reproduzir e valorizar esta pequena passagem desta grande viagem pelo Havaí. Mas senti que aquele momento no meio da caminhada fez a felicidade de 9 brasileiros e um havaiano naquele dia, mesmo sendo no meio do caminho...

"Mahalo Nui Loa Ke Akua Malama Pono", em profundo agradecimento somos abençoados pelo Sagrado. 

Foi isto que esta simples história havaiana me ensinou...


A sinuosa estradinha a beira mar na ilha de Molokai, no Havaí, que leva ao Halawa Valey.

O nativo havaiano que nos mostrou o verdadeiro sentimento da gratidão polinésia nos presenteando com viseiras de palha feitas por ele.

O nativo havaiano da ilha de Molokai com suas vestes típicas e as viseiras de palha feitas por ele mesmo, com que nos presenteou.


Mahalo Nui Loa e até a próxima postagem! 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Saldo da Maui2Molokai2014


Saldo da Maui2Molokai2014 para mim, Luiza Perin, em minha primeira temporada havaiana de downwind: 47km de desafios concluídos  com sucesso. 
Completei a prova que cruza o canal entre as ilhas de Maui e Molokai, no Havaí, remando uma prancha de 14 pés de stand up paddle, em 5h30minFui a última das últimas a chegar dentre os mais de cem remadores de diversas nacionalidades inscritos na prova. Mas a luta para cruzar a linha de chegada foi dura e desafiadora, e isto me permite desfrutar de um sentimento de conquista talvez tão grande quanto aquele que deve ter sentido o havaiano Connor Baxter, grande vencedor da prova (completou em 3h04min).

Além das adversidades naturais do percurso, tive doses extras de adrenalina nos minutos que antecederam a largada. O capitão do barco de apoio que me acompanharia lado a lado durante a remada ligou, quando faltava apenas 30 minutos para a largada, informando que, lamentavelmente, teve um problema com o transporte de seu barco e que seria improvável que ele conseguisse chegar a tempo da largada. A presença de um barco de apoio ao lado do competidor é importante em uma prova como esta, mas nem todos os remadores contratam um para si. Já em outras provas como a Molokai2Oahu, o barco de apoio individual para remador é obrigatório e só participa da competição o atleta que contrata um barco para si. Como as distâncias são grandes e cruzam canais oceânicos no mar do Pacífico, a função dos barcos de apoio é acompanhar, para dispor de suporte e segurança, o atleta durante todo o percurso da prova. 
Às 9h55 da manhã de 12 de julho de 2014, a exatos cinco minutos de soar a corneta de largada da minha primeira prova no Havaí, meu barco ainda não havia aparecido no mar. Enquanto todos os competidores, posicionados em suas pranchas, olhavam atentos e alertas para frente esperando o primeiro milésimo do som do alarme de partida, com remos a postos, eu, aflita, olhava para trás, ansiosa a procura de um barquinho verde e pequeno que deveria estar ao meu lado para seguir comigo os 47km de remada que teria pela frente. 
Soou a corneta. Uma multidão de pranchas zarpa pelo mar infinito do Havaí, distanciando-se da pequena enseada de pedras em Lahaina, na ilha de Maui, deixando um grande rastro branco na água provocado pelas fortes remadas de seus braços. E eu, ainda aflita, permanecia ajoelhada em minha prancha, olhando por todos os lados e com milhões de incertezas na cabeça. 
Longos e infinitos minutos se passaram e de repente eu avisto um barquinho verde claro, a toda velocidade, vindo em direção da enseada. Só podia ser ele! Acenei com o remo para que me reconhecesse e esperei ele se aproximar para poder ler o seu nome, que me daria a certeza de que era mesmo o meu barco de apoio, identificando as características informadas pelo capitão por telefone. 


O barco chegou perto de mim e seu comandante não parava de se desculpar: "I'm so sorry!" Eu não me importei, não fiquei chateada, apenas agradeci por ele ter chegado e dei graças a Deus quando identifiquei seu nome escrito no bordo: CORAJOSA!
Scotty Olive, um havaiano gente fina que já viajou pela América do Sul e se simpatizou pelo Brazil, pode ter - muito por acaso - um dia batizado seu barco assim. Mas a maneira emocionante com que chegou até mim neste dia, naqueles minutos iniciais desta importante travessia, me deram a certeza de que não foi por acaso que, justamente este barquinho chamado Corajosa, foi o meu barco de apoio no Havaí. Afinal de contas, não é qualquer havaiano que batiza seu barco com um nome em português. E menos ainda, não é qualquer nome em português que é usado para nomear um barco no Havaí. Seu nome era uma palavra necessária para mim exatamente naquele dia. No feminino. E no mar do Havaí. "Let's go, my friend! Let's go!" E lá fui eu... Finalmente pude mirar o meu destino na ilha de Molokai e remar para frente, exatamente como, momentos antes, todos os outros remadores faziam. O caminho foi longo. Os primeiros 20kms do percurso foram muito difíceis pois o vento ainda não estava perfeitamente alinhado com a rota de navegação. Além disso, sem conhecer o caminho eu não tinha uma referência exata no horizonte, e isto às vezes é o maior inimigo do remador determinado.
Quase desisti por duas vezes. Cheguei a sentar na prancha, ao lado do barco, e falar para o capitão que remaria apenas por mais alguns minutos e subiria no barco de apoio, desistindo da prova. Mas na segunda vez que fiz isso ele apontou para um diminuto retângulo branco no longínquo litoral da ilha de Molokai. Era a chegada. Há 25kms de distância. Horas mais tarde eu encostava minha prancha no porto de Kaunakakai, no Hawaian Canoe Club, com um dos maiores sentimentos de conquista e transformação da vida. Ventos e ondas soprando e empurrando a favor precisaram ser domados e surfados. Sentimentos de medo, de dúvida e insegurança ao longo das horas foram se transformando em confiança, certeza e alegria de estar ali. 
Certa vez li uma frase de autoria desconhecida mas que nunca esqueci, que era mais ou menos assim: "Todos que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si. Levam um pouco de nós". Sou daqueles que acreditam na "alma dos barcos", na energia que eles carregam. Por isso tive a certeza de que, se ganhei um pouquinho mais de coragem nesta vida, foi porque estive ao lado do barquinho havaiano "Corajosa" pelos 47kms entre ilhas de Maui e Molokai no Havaí. 

Aloha e até a próxima postagem! 
Luiza Perin 
17 de julho de 2014



sexta-feira, 4 de julho de 2014

Primeira dupla mista brasileira na Molokai2Oahu - Hawaii

POSTER DA MOLOKAI2OAHU 2014
Comprei meu primeiro SUP no final de 2012. Era uma prancha race com 12’6 de comprimento e 27 polegadas de largura da Art in Surf. Minha primeira remada com ela foi um downwind* de 18km da Praia de Itacoatiara (Niterói - RJ) à Praia de Copacabana. Esta primeira remada prescreveu meus caminhos no mundo do stand up paddle e aquela velha história de entrar na água com uma embarcação a remo e desaparecer na linha do horizonte em busca do destino continuou me fascinando.

Agora eu estava em pé - stand up - olhando o mar de um andar acima do que em minha canoa havaiana. Precisava conquistar do zero naquela prancha tudo o que eu já possuía com minha canoa: equilíbrio, estabilidade, firmeza, segurança, etc. Novo brinquedo, novos desafios. Fabiano, que então era apenas um amigo e me ajudou a escolher a prancha certa, me ensinava com tanta atenção e paciência que começou a dar os primeiros sinais de que aquela história não terminaria ao fim de algumas remadas, muito menos em qualquer praia. Mais tarde, descobrimos que nossa história estava apenas começando. Minha vontade de estar na água remando cresceu e eu não sabia que isso era possível. O que antes era completamente preenchido pela canoa passou a ser ocupado também pelo SUP e aos poucos fui ganhando a confiança necessária para permanecer em pé, remando em frente.

FOTO DA MINHA MINHA PRIMEIRA REMADA NA PRANCHA RACE NOVA, SAINDO DA PRAIA DE ITACOATIARA COM DESTINO À COPACABANA, EM OUTUBRO DE 2012.
Hoje, a próxima praia do nosso destino se chama Maunalua Bay. Dentro de poucos dias embarcamos para uma viagem dos sonhos: competir juntos, no Havaí, a prova de stand up paddle mais importante e respeitada do mundo - a Molokai to Oahu. São 32 milhas (51,5km) de distância entre uma ilha e outra com ondas e ventos de 25 nós (47km/h) nos empurrando para nosso destino. A verdadeira e mais pura alma do downwind - aquela brincadeira que comecei a experimentar há pouco menos de dois anos, em 2012, quando zarpei na Praia de Itacoatiara com Fabiano, mirando Copacabana como linha de chegada.

Este será o 18° ano de realização desta tradicional prova, mas será apenas o primeiro em que a organização permitiu a categoria mista no desafio. Eu e Fabiano vamos disputar juntos por uma colocação com as outras únicas cinco duplas mistas inscritas, uma da Suíça, uma do Canadá e três do Havaí. Mas meu maior desafio será, acima das duplas, deixar no mar Havaí o melhor de mim, meu maior esforço, minhas maiores doses de adrenalina, concentração e diversão. Além de ser a meca do surfe, o Havaí é também o suprassumo do remo e do downwind.

LISTA DAS DUPLAS MISTAS INSCRITAS NA 18a EDIÇÃO DA MOLOKAI2OAHU, E PRIMEIRA EDIÇÃO COM CATEGORIA DE DUPLAS MISTAS. 
Espero aprender muito sobre estas modalidades nesta temporada havaiana e voltar com mais experiências e conhecimentos para continuar prosperando no esporte. Sempre gostei de desafios. Há nove anos sou remadora de canoa havaiana e há menos de dois ingressei no stand up paddle. A pergunta é: “Por que não optei fazer esta prova de canoa, já que é um esporte em que tenho mais experiência?” Porque há pouco menos de dois anos não foi apenas uma prancha branca da Art in Surf que entrou na minha vida. Junto dela veio um remador de downwind também, e nós dois queremos competir e remar juntos, lado a lado*, no Canal dos Ossos que separa as ilhas havaianas de Molokai e Oahu. E é pra lá que nós vamos!
Imua, em havaiano, pode ser traduzido como “adiante, siga em frente”. 
Imua!

*Modalidade específica de alguns esportes aquáticos em que se aproveita a direção alinhada do swell e do vento para navegar a favor das condições, possibilitando pegar ondas em pleno mar aberto.

*A categoria de duplas na Molokai to Oahu é disputada no formato de revezamento. Cada dupla possui um barco que a acompanha durante o percurso da prova. Os dois remadores revezam os momentos de remada durante o trajeto: enquanto um está remando o outro fica no barco e vice versa.