segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Descobrindo a Ilha Mãe


A Ilha Mãe fica a 2,3 quilômetros da Praia de Itaipu, em Niterói, RJ. Trata-se de uma área proteção integral pois faz parte do Parque Estadual da Serra da Tiririca desde outubro de 2012, quando foi publicado em Diário Oficial o decreto de ampliação desta Unidade de Conservação. 

A maior parte da ilha é de costão rochoso exposto, mas abriga também uma singela porção de Mata Atlântica e vegetação rupícola. Não existe praia para desembarque e a canoa deve ser ancorada na face Sul da ilha. Embarcações pequenas como caiaques e canoas individuais e duplas podem ser levadas para cima da rocha em dias de mar bem colado. Há uma poita utilizada por pescadores há alguns metros do costão. Para OC6, vale a pena amarrá-la à poita pela popa e jogar a âncora pela proa, ou vice-versa, para que a canoa não venha a bater no costão de pedra. 



Canoa Itaipu ancorada à beira da Ilha Mãe.
É importante estar munido de calçados apropriados para subir na ilha sem correr o risco de machucar os pés nas cracas, mexilhões e possíveis ouriços. E é importante, também, ficar atento para não escorregar nas partes de pedra lisa e molhada, principalmente com o vai e vem das ondas. 


Calçado emborrachado para proteger os pés das incrustações locais.
Este é um dos belos cenários que se tem no topo da Ilha Mãe. 
Para chegar ao topo existe uma pequena e escondida trilha que atravessa a vegetação mais densa da ilha e passa por um lindo campo de bromélias pela face Sul. Existe à beira d'água uma pequena toca na vegetação com vestígios claros da presença de pescadores no local. A trilha começa exatamente ali e passa por trechos íngremes onde o visitante encontrará uma corda para auxiliá-lo, fixada ali provavelmente pelos próprios pescadores que frequentam o local. 

Trecho aberto da trilha para o topo da Ilha Mãe.
Junto ao Morro das Andorinhas, a Ilha da Menina (verdinha, coberta de capim), a primeira que forma a tríade de ilhas: Pai, Mãe e Menina. Mais ao fundo, à direita, o Costão de Itacoatiara e o Alto Mourão: atrativos e belezas naturais do Parque Estadual da Serra da Tiririca.
Interessante também é caminhar pela parte baixa da ilha, beirando o costão rochoso pelo lado do continente.

Chaer e Carminha  num abraço inspirado pelo lindo visual da Ilha Mãe.
Também na parte baixa da ilha, em dias de mar bem calmo há uma piscina natural com singelas belezas subaquáticas para descobrir ou redescobrir. Quem é do mar sabe o quão comum e corriqueiros são nos costões rochosos os mexilhões, as cracas, as algas verdes e os peixes sargentinhos. Mas mesmo comuns, ainda assim são belos e admiráveis. 

Quando estudante de Biologia Marinha estava em uma saída de campo, em um barco rumo às Ilhas Cagarras quando, no caminho, avistei uma tartaruga marinha e apontei para ela gritando: "Uma tartaruga!!!". Uma colega perguntou: "Nunca viu?". "Vejo todos os dias quando remo" - respondi - "mas felizmente nunca perdi a capacidade de surpreender com elas!".


Esta capacidade de me surpreender mesmo com as coisas mais simples da natureza continua:



Craca comum nos costões rochosos do nosso litoral. Trata-se de um pequeno crustáceo bentônico (que vive encrustado) que habita dentro desta dura carapaça e se alimenta do fitoplâncton suspenso na massa d'água. Esta carapaça enrijecida o protege da força das ondas que batem das pedras. Na maré baixa, quando expostos ao Sol, se fecham para manter seu interior úmido. Quando a maré volta a subir, se abrem novamente.  Espécie: Balanus balanus
Mexilhão (Perna perna), alga verde (Ulva fasciata) e o peixe listrado sargentinho, organismos comuns na parte rasa dos costões rochosos do Sudeste, fotografados na beleza da simplicidade subaquática encontrada na Ilha Mãe. 
Fabiano na piscina natural da Ilha Mãe. Esta parte da ilha vai ficando gradativamente rasa em direção ao mar, formando uma lage onde quebram altas ondas em condições de swell e tamanho específicos. O surfe de OC4 têm funcionado muito bem ali...
Algumas pessoas acreditam que quanto menos se divulga um lugar pouco frequentado, mais protegido ele permanece. Por algum tempo eu acreditei nisto e já fui muito relutante em divulgar fotos de locais que considerava "secret spots". Este conceito de conservação da Natureza - de que para preservá-la é preciso manter o ser humano longe - vem de um pensamento ultrapassado que foi disseminado nos anos 70, quando a ideia de conservação ainda se relacionava com proposta de isolamento de áreas verdes em inúmeras Unidades de Conservação intocadas, onde a presença humana era proibida. Hoje eu entendo que quando um lugar bonito se torna mais conhecido pelas pessoas, aumentam as chances deste lugar ter seus aliados perante o Poder Público para que continue belo e preservado. Cito aqui os exemplos de Martim de Sá, no litoral de Paraty, e as Ilhas Maricás, a 6 kms da Praia de Itaipuaçu, em Maricá. Já fiz postagens neste blog sobre estes dois lugares, ambos no estado do Rio. Martim de Sá, paraíso de caiçaras na Costa Verde, sofre com sucessivas pressões de interesse econômico e especulações imobiliárias. Graças a paixão de jovens advogados e profissionais de diversas áreas que frequentam o local, além de centenas de outros aliados, movimentos em defesa de Martim de Sá têm sido criados e têm ganhado força perante a Lei e perante as tomadas de decisão do Poder Público no que diz respeito à preservação do local e à permanência do povo caiçara que ali vive, personificado na figura do Seu Maneco. Se Martim de Sá fosse um lugar secreto para poucos e escondido do mundo, que força política teriam os caiçaras para lutar pela terra de que têm direito? Ao divulgar a beleza das Ilhas Maricás, que frequento desde 2009, minha intenção é alardear para os remadores que a beleza daquele local pouco explorado por nós corre graves riscos de desaparecer. Com a instalação de um duto submarino do Comperj para o despejo de rejeitos petroquímicos a poucos quilômetros da costa de Itaipuaçu, a vida marinha daquele arquipélago é colocada definitivamente em cheque mate. Esgoto petroquímico contendo uma série de óleos graxos e substâncias venenosas que sequer conhecemos estarão suspensos na coluna d'água poluindo o mar e comprometendo o ecossistema marinho alcançando, inclusive, o topo da cadeia alimentar onde se encontram os pescadores que tiram do mar o seu próprio "emprego" e alimento. Quanto mais gente souber disso, melhor. Que possamos desenvolver senso crítico para avaliar que não existe progresso nestas circunstâncias. 

E voltando então à Ilha Mãe... pra quem não conhece, eis aqui! Ilha Mãe, atrativo do Parque Estadual da Serra da Tiririca.


Ilha Mãe visualizada a partir do Google Earth. Ao Norte, observa-se a "península" que forma a lage onde quebram as ondas surfáveis. De amarelo, o croqui da trilha que leva ao topo da ilha.
TODO O VERDE E O AZUL DA NOSSA BANDEIRA PARA DESCOBRIR, REMAR E DESBRAVAR. IMUA!!!

Aloha e até a próxima ilha a ser desvendada!
Luiza Perin

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

E o destino continua sendo a Ilha Grande...


Aqui estou eu, de novo no mar, rumo a Ilha Grande!
Se existisse piloto automático em uma canoa havaiana, a Guardiã teria gravado em seu HD todas as rotas com destino a Ilha Grande. Este relato conta a trajetória de ida e volta entre a Vila do Frade, em Angra, e a Praia de Araçatiba, na Ilha Grande, em uma remada de 51 quilômetros durante dois dias do carnaval de 2013. 

Uma vez mais me vejo remando com a proa da Guardiã apontada insistentemente para a Ilha Grande, predestinada a chegar neste horizonte sempre buscado.


Proa da Guardiã navegando para Ilha Grande.
Mais a frente, Fabiano remando de stand up. 
A Baía da Ilha Grande possui 365 ilhas - uma para cada dia do ano - sendo a mais bela, a mais visitada, a mais encantadora e maior de todas o destino preferido de muitos que concordarão comigo: Ipaum Guaçu, na língua indígena, ou simplesmente Ilha Grande. Desde que a visitei pela primeira vez (acho que em 1999) até a última vez - dias atrás - sinto incansável fascínio por aquele imenso pedaço de terra que emerge no mar da Costa Verde e atinge uma altura que chega até 980 metros de altitude e imponência da Natureza.

"Remar até Ilha Grande". Como esta frase não sai da minha mente!? Como a repito sempre, seja lá onde for o ponto de partida!? Desta vez, o ponto de partida foi o Condomínio do Frade, a 40 quilômetros de Angra, pela estrada. 



"Remar até Ilha Grande" - uma frase que não se cansa nunca de florear minha mente e meus planejamentos de remadas.

A saída foi por volta do meio dia da segunda-feira de carnaval. A tripulação da expedição: eu e meu namorado. 


No gramado do Condomínio do Frade, os preparativos para a partida, com a atenção necessária para todo o início de expedição: checagem de material, dos equipamentos e dos pertences.

Munidos de bastante água e alimentos energéticos, eu de OC1 e Fabiano de stand up, demos início à remada de 28 quilômetros tranquilamente percorridos em 4 horas, serpenteando entre as ilha da Baía de Angra, sendo mais da metade deste tempo com vento contra e grandes lanchas cortando os mares por todos os lados. Em alguns momentos as ondas promovidas por elas ajudavam a nos dar impulsos na remada, em outros balançava as águas deixando um rebuliço emaranhado de espumas para transpor. Apesar da nossa esclarecida preferência por embarcações a remo e a vela, foram estas motorizadas que fervilhavam nos mares de Angra durante o carnaval que por duas vezes pararam para nos indicar o caminho da Praia de Araçatiba quando assim solicitamos. 

Na primeira vez, uma lancha de três andares e 72 pés com animados amigos bebendo cerveja não souberam indicar a rota da praia perguntada. Alegremente nos chamaram de loucos e nos convidaram diversas vezes para subir a bordo com nossas pequenas embarcações para seguirmos com eles até o destino procurado, onde descansaríamos e beberíamos cerveja. Agradecemos duplamente o convite e a simpatia e seguimos remando na dúvida entre qual longínqua faixa de areia seria finalmente a Praia de Araçatiba, na imensa Ilha Grande avistada ao longe. Quando confirmamos, minutos mais tarde, com a tripulação de outra embarcação a motor, tivemos certeza de que nossa intuição e senso de direção estavam corretos desde o início mas concluímos que, para remadas como esta, um bom GPS de navegação é mais apropriado que o usual GPS de treino que normalmente usamos. Sabendo disto deste antes de sair, Fabiano marcou no GPS de pulso o checkpoint em nosso ponto de partida no Condomínio do Frade. Desta forma, ainda que houvessem pequenas dúvidas sobre a rota do destino, uma seta no visor do relógio garantiria a indicação correta do caminho de volta, mesmo se o tempo se fechasse em névoas ou uma chuva forte escondesse as montanhas que nos orientavam na navegação.


Ao longo da faixa que margeia o lado Sul da Ilha Grande corre um grande canal de navegação por onde passam gigantes navios de carga que vão e vem do Tebig, o Terminal de Petróleo da Baía da Ilha Grande. Navios não freiam nem fazem curvas com a facilidade das lanchas, por isto deles eu tenho mais medo que destas últimas. Para se precaver de acidentes inusitados (já imaginou ser atropelado por um navio de proporções colossais!?), é importante estar atento ao passar pelos canais de rota de navios. Este treino de atenção eu pratiquei ao longo dos últimos oito anos da minha vida desde que comecei a remar nas águas da Baía de Guanabara. "Atravessar a poça" a remo tem dessas coisas: você escuta aquela longa buzina do navio - "uooooooooooooooooooommmmmmmmm" - e sempre tem a sensação de que foi pra você que o comandante buzinou! Nesta hora a gente aperta o remo mais forte e acelera o ritmo da remada pra sair da frente do gigante sem freio! 



Aguardando a passagem do gigante sem freio para continuar a remada rumo a Ilha Grande, vista ao fundo.
Duas boias demarcam a passagem dos navios neste canal da Ilha Grande - uma vermelha (chamada no mundo náutico de "encarnada") e outra verde. Ao ver um navio que rumava para o mar aberto se aproximando, paramos perto da boia vermelha, antes de atravessar o canal, para esperar o gigante passar. Estávamos a uns 40 minutos do nosso destino e ainda restava uma discreta necessidade de confirmação se aquela que víamos pequena diante de nós era mesmo a Praia de Araçatiba. Aproveitamos a passagem da lancha Pilot - aquela que sempre embarca e desembarca o prático dos navios - para obter a derradeira resposta: sim! Estávamos certos! E seguimos felizes e remando até mais forte - já nesta hora sem o vento contra - rumo a Ipaum Guaçu.

Por volta das seis horas da tarde chegamos ao nosso destino, a casa da minha tia Ângela, onde eu imaginava que encontraria primos reunidos e rostos familiares. Subimos no cais e lá fui eu escadarias acima chamando pelo meu primo Gegê. Qual não foi minha surpresa, a casa estava alugada para desconhecidos! 


Fim de linha da remada de ida. Praia de Araçatiba - Ilha Grande.
As pessoas jovens e extremamente acolhedoras que estavam na casa de tia Ângela e tio Galindo se interessaram pela história da nossa remada e insistiram diversas vezes para que ficássemos no quarto que estava vago e comêssemos o estrogonofe que haviam feito para o jantar daquele dia. Enquanto comíamos, nos rodearam com perguntas sobre o tempo de remada, a frequência com que fazemos isto e todo tipo de curiosidade que as pessoas têm quando vêem os viajantes do mar. 


Breves amigos que se eternizaram na história desta singela expedição de canoa havaiana e stand up.
Naquela noite, saímos a passear despreocupadamente pelas areias ainda quentinhas daquele dia de verão. Em meio a movimentos carnavalescos, música alta e pessoas perambulando animadamente pela praia, encontramos um lugar tranquilo para recostar em um barco de pesca e observar a noite. Antes, passamos em uma venda para comprar água para a volta e pão para o café da manhã. A partida no dia seguinte foi às sete e meia da manhã.


No conforto da areia, encostados em um barquinho de pesca para observar a  tranquila noite de carnaval que desfrutávamos na Ilha Grande, depois de uma bela remada.
A remada de volta, no dia seguinte, foi uma tranquilidade. Vento quase zero (3 ou 4 nós de velocidade) e mar calmo. Cruzamos com menos lanchas e mais veleiros que o dia anterior. 

Pouco vento na remada de volta e as duas formas de estar no mar que mais admiramos: remando e velejando.
Assim como na ida, revezávamos as embarcações de vez em quando. Encontrar um ponto de equilíbrio entre você e o mar e traçar um ponto no horizonte para onde remar: assim é avançar uma remada em uma prancha de stand up. Um exercício de presença constante da mente, que lembra ao corpo todo instante a importância de se manter em equilíbrio. 

Um dos momentos em que assumi o stand up na Costa Verde: equilíbrio e contemplação.
Mar verdinho e 365 ilhas para descobrir a caminho da Ilha Grande.
Entre um descanso e outro, mergulhos para refrescar e barrinhas de proteína para se alimentar. Amendoins salgados nas remadas são ótimos para combater a queda de pressão. Uma bagagem bem montada é um dos segredos para o sucesso de uma expedição. Uma muda de roupa seca deve ficar no ponto mais intocável da bagagem. Independente de quantas noites passará na travessia - sendo de uma a quatro noites - a quantidade de roupa pode ser a mesma: a roupa molhada no corpo e a muda de roupa seca em uma bolsa estanque. A roupa molhada é a que estará com você durante todos os dias de remada e durante as incursões em terra, de dia. A roupa seca é a que você usará para dormir ou também quando tiver a certeza de que não irá se molhar. Carregar pouco peso na canoa é fundamental para que o desempenho físico e psicológico da remada não sejam alterados.

Bagagem e remo reserva amarrado no iaco traseiro da canoa. Também no iaco traseiro, uma faca de mergulho de cabo amarelo (se afundar em águas rasas, é fácil  encontrá-la por causa da cor) bem afiada que pode ser útil para diversas situações. Certa vez precisei muito cortar fios emaranhados de nylon que enforcavam pescoço e nadadeiras de duas tartarugas marinhas na Enseada de Jurujuba, em Niterói, e passei um sufoco por não ter uma faca.

Bagagem no mar.

Estes foram dois dias muito bem aproveitados do nosso carnaval no mar. E esta foi mais uma remada ao meu destino preferido. Quando quero dizer para mim mesma que algo bem difícil pode parecer bem fácil eu digo: "Ilha Grande é logo ali". Que seja "logo ali" para todos nós! 

Fabiano remando, o tempo fechado no continente, que ficara para trás, e a Ilha Grande "logo ali" à sua frente.
Aloha, imua e até a próxima postagem!
Luiza Perin